Ver para além do brilho do fogo II

Muita tinta tem corrido e muita tecla tem sido batida, graças aos motins em Londres.Isto aplica-se tanto à blogosfera como aos media tradicionais. De um lado, como habitualmente, temos a direita trauliteira que vê no cacetete o remédio para tudo. De outro lado, temos aqueles que, não sendo tão trogloditas como os primeiros, se recusam a tentar sequer perceber quais os móbeis profundos para uma reacção violenta como a que temos assistido. Estes remetem tudo para o foro da criminologia. Por fim, graças aos deuses, há os que não se deixam ofuscar pelas chamas dos edifícios queimados no noticiário da TVI e buscam as razões, que terão de ser sociais e políticas, para o que está a acontecer na Inglaterra.

Quem fica admirado com o facto de este tipo de coisas sucederem, só pode ser ou desatento ou hipócrita. A austeridade que nos é imposta, as políticas de privatização geral da riqueza pública e a crescente repressão em sociedades cada vez mais securitárias, racistas e orwellianas tinham de dar os seus frutos. As respostas à miséria que nos é enfiada pela goela podem ser várias: podemos ter o pacifismo ibérico, que se contenta com manifestações e outras acções, umas vezes mais radicalizadas, outras menos; podemos ter a resposta grega, com confronto físico, mas uma luta altamente politizada; ou podemos ter a resposta londrina. Tudo depende do quão incisivas são as medidas de austeridade impostas pelo governo (e nisso a variação é diminuta a nível europeu), das relações de força entre as classes e do carácter que as direcções políticas dos diferentes grupos sociais assumem, entre outros factores, alguns bastante mais complexos.

Relativamente às duas últimas premissas, não as posso avaliar, por puro desconhecimento do contexto real. No tocante à primeira, porém, é claro que temos em fase de aplicação uma agenda neo-liberal que faria a Margaret Thatcher corar de vergonha. O que une todos os amotinados de Londres é o facto de que não têm um futuro, o qual lhes foi roubado pelos sucessivos governos britânicos. Assim, a única maneira que lhes é possível para subir no status quo é roubando uma TV de alta tecnologia e umas sapatilhas na loja da esquina, que há poucos dias apenas podia ser frequentada pelos preppies conservadores. Pelo caminho, enfrentam uma polícia que os intimida quotidianamente e mandam às urtigas uma sociedade na qual eles não se enquadram.

Pois está claro,  este é o reverso da moeda. Esta é uma das faces de um sistema económico irracional, que sacrifica no altar do Lucro toda uma sociedade e todas as perspectivas de harmonia social. Este é o reverso de uma política subordinada aos sacerdotes da Competitividade e do Liberalismo, que não hesitam em privar 90% da população da mínima dignidade, de forma que os proventos de meia-dúzia de exploradores não decaiam.

Não deixa de ser assustador reparar na total falta de organização, de consciência de classe, no carácter totalmente nihilista dos amotinados. Não deixa de ser vergonhoso que um dos alvos desse exército cego sejam os mesmos que sofrem as pilhagens do governo de Cameron. Não podemos idealizar as acções que têm lugar, neste preciso momento, em Londres, como alguns se sentem tentados a fazer. Não estamos perante uma romântica revolta de uma juventude apaixonada, que luta por um mundo novo. Estamos perante o grito de insubordinação de uma juventude desesperada, que sabe que não quer ir por aqui, mas não sabe por onde ir. As coisas são o que são e se há algo a aprender com Londres, além da necessidade de ultrapassar este sistema obsoleto e esquizofrénico que nos conduzirá à barbárie global, é reconhecer a debilidade que a total falta de politização pode imprimir no movimento. De nada vale uma arma cuja mira está desregulada. Escamotear isso é meio caminho para futuras derrotas.

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