Vamos fazer caridadezinha

Qualquer governo neo-liberal que seja minimamente sensato sabe que medidas draconianas não podem ser implementadas sem um contra-ponto, por mínimo que seja, que lhe granjeie alguma simpatia por parte da populaça. Não se pode somente roubar com três mãos. Por vezes, é necessário dar com uma para tirar com duas.

É neste contexto que surge o novo Programa de Emergência Social, anunciado pelo governo. Não podemos só entregar de bandeja dinheiro à banca, seja os milhares de milhões entregues aos agiotas do BPN e do BIC, ou os próximos milhões do orçamento rectificativo, feito à medida dos ditames da troika. Não podemos simplesmente pilhar empresas públicas potencialmente lucrativas e entregá-las a privados. Não é possível deitar sobre as costas de quem menos tem os gastos de mais uma crise capitalista, poupando os senhores da alta finança, sem dar um cheirinho de esquerdice à ralé.

Não. Claro que temos de dar uns remendos e côdeas à peasantry,  para que os da mó de cima fiquem com a totalidade do pão e do agasalho.

Qual é a resposta então? Caridadezinha ao bom estilo salazarista. Damos mais umas coroas às IPSS, para que elas cumpram serviços que devem ser estatais, propagandeiam-se uns paliativos para inglês ver, crédito para os desempregados criar o seu próprio emprego (sim, porque toda a gente sabe que isto está muito bom para iniciar empresas do zero e o que falta neste país é empreendedorismo), aumenta-se em 10% o subsídio de desemprego (mas põem-se esses preguiçosos a fazer serviço comunitário, como criminosos que são) e dão-se umas refeições, qual sopa dos pobres, para os coitados que não têm nada que comer.

Enfim, é a esmolazinha cristã, por isso não me admira nada que os primeiros a aplaudir o nosso benemérito governo da nação sejam as Misericórdias, que sobrevivem graças às ineficiências crónicas de um estado social abortado.

No entanto, é preciso dizer: não precisamos de caridade, precisamos, isso sim, de um estado social. Precisamos de cantinas públicas e gratuitas nos locais de trabalho. Precisamos de creches, escolas e lar de idosos públicos em todo o país. Necessitamos de nacionalizar os sectores centrais da economia, para impulsionar o investimento público e a criação de emprego. Precisamos de nacionalizar a banca, para acabar com a agiotagem e promover crédito justo aos trabalhadores e às pequenas empresas. Precisamos de apoio social digno e efectivo para quem mais precisa. Precisamos de expropriar os imóveis devolutos há anos, para promover habitação digna para todos. Precisamos acabar com offshores e taxar a bolsa. Necessitamos de educação e saúde pública e gratuita, porque só assim poderá ser universal. A riqueza existe, somos nós que a produzimos. Por isso, vamos buscá-la onde ela se concentra, isto é, nas mãos de meia dúzia de Amorins e Belmiros.

Enfim, necessitamos de medidas que ficam a um mundo de distância da benevolência do governo PSD/CDS-PP, que mais não faz do que normalizar a pobreza. As exigências aqui apontadas não são regalias, mas direitos que nos foram progressivamente retirados.

Bem, certamente que a minha retórica não será a melhor, pelo que entrego ao José Mário Branco a responsabilidade de formular isto de uma forma compreensível para todos, com  o tom  irónico tão típico do cantautor.

One thought on “Vamos fazer caridadezinha

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