Quem ganha com o terrorismo?

Antes de responder a esta questão, temos de colocar ainda outra: o que motiva o terrorismo? A análise superficial típica da direita concluirá que é o “radicalismo”, o “fundamentalismo religioso” e uma série de outros -ismos. Outra direita, ainda mais cavernosa, diria que, sem sombra de dúvida, a fonte do terrorismo é o islamismo, como se este levasse ao primeiro, numa perspectiva mecanicista. Por conseguinte, esta perspectiva, talvez a mais corrente nos dias que correm, transformará todo e qualquer muçulmano num potencial terrorista.

Antes divagar mais, temos de afirmar: o terrorismo é uma resposta política. Podemos condená-la, tal como condeno os ataques em Oslo, mas temos de resistir à tentação de identificar estes ataques com os imigrantes muçulmanos da Noruega ou os muçulmanos nascidos na Noruega.

O terrorismo é uma táctica política, assumida por grupos políticos, conquanto se acolham sob uma bandeira religiosa, que perseguem objectivos políticos (no caso do grupo que reivindicou o atentado em Oslo, a retirada das tropas norueguesas do Afeganistão). Ataques terroristas já foram perpetrados por católicos irlandeses e marxistas-guevaristas, guerrilheiros palestinianos e comandos Mossad israelitas. Todos os aplicaram, quer condenemos as suas acções ou não. Não é um exclusivo de uma religião, de uma ideologia política ou de uma etnia. Ou seja, antes de propor a expulsão dos imigrantes muçulmanos da Noruega ou o encerramento de fronteiras, retenham isto.

Todo este arrazoado vem a propósito de uma questão muito simples: a direita xenófoba está a esfregar as mãos de contentamento dissimulado com estes ataques. Finalmente, mais uma razão para estigmatizar os muçulmanos e para fundamentar as intervenções da NATO nos países muçulmanos, tudo em nome do combate ao terrorismo. No fundo, são estes quem ganham com este tipo de acção inconsequente e até contra-producente no combate ao imperialismo.

Tenho confiança que os noruegueses vão conseguir analisar as coisas com a frieza própria do país e discernir quem são os culpados e quem são os bodes expiatórios, que os vai haver.

Por outro lado, queria realçar outra coisa: os europeus estão a aperceber-se da pior maneira do que é viver em guerra. Até aqui, apoiava-se a ida de militares europeus para o Afeganistão, para o Iraque ou para a Líbia com a consciência tranquila, pois era uma coisa distante e que não iria ter consequências práticas na nossa vida. Agora, lamentavelmente, os noruegueses sabem o que é viver em Tripoli ou em Cabul…

Editado: Parece que não está confirmada a autoria dos ataques no centro de Oslo, mas pelo menos o atirador que massacrou os jovens do Partido Trabalhista não parece estar ligado a movimentos jihadistas e é bastante norueguês. Ignora-se a sua agenda política, se ela existe. Outras fontes ligam ambos os atentados a movimentos neo-nazis.

One thought on “Quem ganha com o terrorismo?

  1. Pingback: Afinal, o terrorista não tinha turbante, falava norueguês e estava bem barbeado | Sentidos Distintos

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