A explosão na Noruega e o jornalismo de categoria

Não há nada como explorar um evento trágico com o velho tempero do alarmismo e do sensacionalismo. Os serviços de notícias vão de mal a pior e cabe-nos a nós exigir a postura crítica que se pede.

Escrevo a quente. Soube da explosão há umas horas e parece-me que é consensual ter sido causada por uma bomba. Em outro ponto da Noruega, um homem desatou aos tiros num campo do Partido Trabalhista (do Trabalho?) e matou pessoas também.

Tendo em conta que mais não sei, mais não digo. É interessante que assim eu proceda, naquilo que me parece do bom senso mais elementar, mas que o Público (a título de exemplo, já que os outros jornais que acompanho fazem exactamente o mesmo) parta logo para associações do caso com questões que apenas tangencialmente se especula estarem relacionadas:

A estação de televisão Al Jazira sublinhou, no entanto, que o incidente ocorre poucos dias depois de a procuradoria norueguesa ter interposto uma acusação por terrorismo contra Najmuddin Faraj Ahmad, ou mullah Krekar, fundador do grupo islamista Ansar al-Islam, do Kurdistão.

Apesar de estar na Noruega desde 1991, depois de ter fugido do Norte do Iraque, mullah Krekar não tem nacionalidade norueguesa, ao contrário da sua mulher e dos seus quatro filhos. No passado dia 12 foi formalmente acusado por ter ameaçado de morte uma antiga ministra norueguesa, Erna Solberg. “A Noruega pagará um preço elevado pela minha morte”, terá dito então, citado pela Al Jazira. “Se, por exemplo, Erna Solberg me deportar e eu morrer na sequência disso ela terá a mesma sorte”, ameaçou. Não se sabe, no entanto, se a explosão estará relacionada com este caso.

Este parágrafo é incrível e servirá de exemplo total. Penso que não preciso de explicar o quão xenófoba e preconceituosa é esta associação. Ainda por cima, surge sem ligação nenhuma à linha de raciocínio do artigo; nem se justifica no que vem escrito a seguir. Especulação pura e simples.

Desde os primeiros minutos da explosão que se faz uma associação acrítica ao mundo árabe. Eu, que não sei de nada, permaneço calado. Sugiro que façam o mesmo.

Editado: Enquanto escrevo isto, o grupo terrorista afegão Ansar al-Jihad al-Alami (Al-Qaeda era mais curto e elegante, porra) reivindicou o atentado. Não sei se tem ou não relação com o tipo de que falavam. Mesmo assim o meu argumento mantém-se: a associação foi ilegítima e especulativa. (Chamo a atenção para o facto de a própria fonte – NY Times – não confirmar a veracidade da reivindicação)

Editado n2: Em conclusão poética, a culpa acaba por ser atribuída a um norueguês de extrema-direita. Aprendamos de onde vem a verdadeira ameaça.

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