Um velho, novo nacionalismo

Tendo em conta que o argumento biológico falhou, a selecção natural do mercado financeiro passa a justificar a depredação de um país (e, portanto, a superioridade das suas pessoas) em relação a outros.

Que tal: reformular o nacionalismo a partir de parâmetros económicos? Existe algum tabu em retornar a estas ideias para já, pois o bicho papão da História ainda nos incute um respeitoso temor sobre estas formas ideológicas. No entanto, junto-me aos que atiram pedras para quebrar este nosso telhado de vidro, e j’accuseo traço neo-nacionalista reformula a natureza de um povo com base no seu sucesso mercantil, como se de proveniência natural se tratasse, enfabulando a glória de uma comunidade imaginada em confluência económica e redefinindo o tecido social de base segundo a lógica do liberalismo de mercado.

Porque não costumo falar no vazio, vejamos, então, três traços de nacionalismo económico:

– A glorificação dos Estados mais ricos

Este será o mais óbvio, mas apesar de tudo é importante denotar a excessiva devoção ao sucesso de determinados “povos”. Aceita-se a ideia de que os Estados mais ricos são-no ignorando toda a História que contribuiu para o seu enriquecimento: a exploração industrial dos países do terceiro mundo; o imperialismo financeiro (que se vê, hoje, aplicado na Europa); as consequências sociais do seu próprio enriquecimento…

Deste argumento parte-se para a glorificação dos Estados mais ricos, utilizando-os como “exemplo a seguir” para todos os outros, num claro paternalismo que remete para a ignorância e incompetência (e nada mais) todos os outros países.

– A glorificação do povo nos Estados mais ricos

Ficando estabelecido o argumento de que um país mais rico é um país melhor, segue que o “povo” (entre aspas, pois este é um conceito sem objectividade analítica e que é mobilizado apenas nestas situações de patriotismo/nacionalismo) desses países é, também, “melhor”, mais bem organizado, bem comportado e onde se trabalha mais (embora os dados não correspondam a estas afirmações).

– O ataque aos países menos ricos

Apenas segue que, em detrimento da glória do mais rico, os países mais pobres sejam retratados como culpados da sua própria condição. Finalmente, em golpe final, surge a política das costas voltadas ao mundo, do “não ajudamos mais estes pobres e desenrasquem-se, agora“. Acopladas as já esperadas medidas anti-imigração e a respectiva dose de xenofobia, e temos um verdadeiro nacionalismo económico.

A gloriosa Europa compre assim o desígnio Ocidental já há muito traçado pelo capitalismo norte-americano: remeter os países periféricos para a pobreza, explorá-los e viver em luxo à custa dessa exploração. Por cá, os papalvos batem palmas.

Eu não.

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