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“Anúncio – símbolo de uma civilização que conhece o arranha-céus e a caverna. Feira onde tudo se compra e vende – mercadorias, homens, máquinas, amor e outros objectos em segunda mão”*

* Alves Redol, portada de Anúncio

Em dias como estes, preciso de histórias, preciso de História, preciso de determinada gente histórica para não desesperar com o rumo das coisas.

Visito o Alves Redol. Faz 100 anos que nasceu. As comemorações decorrem em Vila Franca de Xira até Janeiro de 2012. Todo um testemunho de resistência, que também vai ser passado a documentário, que espero ver.

 

 

 

 

 

 

 

“À Conversa Com Alves Redol & As Sequelas”, de António Paiva:

“(… A)lves Redol, que é apresentado como aquele que conhece “a dureza da vida dos homens” e escreve dessa dureza com uma magia tal que parece que as palavras, essas mágicas palavras que introduzem o livro, o fazem caminhar sobre nuvens. Alves Redol é apresentado pelo autor como o verdadeiro escritor, o que conhece e percebe a alma das palavras e por tão bem as conhecer as escreve como pouca gente. O livro é uma reflexão sobre o acto de escrever: palavras. Palavras de pedra, palavras de algodão, palavras silêncio. As palavras de algodão alimentam o autor, as palavras de pedra constroem o caos. (…)E o leitor imagina: A rua. A casa. As gavetas. Os móveis. O rosto. A pele. Salvador? O autor? Quem? O leitor? As sequelas de Salvador e a cidade ou a posterior sequela do Anarca e do Bimbo. Formas de olhar? Tentativas de crescer? Ou a certeza do desassossego num mundo como este? Mais tarde a aldeia. Na quarta sequela. A aldeia onde alguém nasceu. Deserta. Abandonada à ternura dos montes. Esta é uma aldeia da Beira Litoral com vista para o sonho de um casal de emigrantes. E a primeira televisão no café da aldeia. A caixinha mágica onde subitamente surge “uma senhora bem apresentada e bem-falante”. “_ Está bom! Está bom! (gritaram algumas vozes de falsos entendidos) Todos bateram palmas e gritavam vivas estonteados de alegria. Vieram jarros de vinho tinto da pipa e garrafas de laranjada para os mais pequenos. Escorria nos rostos a nudez límpida da ingenuidade, do contentamento e do assombro. Abençoado sábado à tarde…” Era no tempo da broa feita no forno de lenha, no tempo do sinal da cruz, no tempo de se comer as miudezas da galinha pedrês, do vai de roda dos pares, da roleta dos rebuçados, da procissão em honra de Santa Bárbara, da filarmónica. Era no tempo da vida ser difícil, verdadeiramente difícil mas da felicidade ainda existir pela possibilidade do sonho. Dois irmãos recostados no tempo de viver ser difícil, voltavam-se para Deus em preces sem resposta. Nem céu lhes valia. Nem nada. Só uma luz muito fraca. O cheiro a terra fértil. E a certeza de que a vida, “a vida não considera mais do que duas hipóteses – ou se luta nela – ou se lhe vira as costas de vencido”. Penso que é em torno desta certeza que o autor dirige o livro. E o leitor? E tu? Lutas por ela ou viras-lhe as costas de vencido? Um romance deu em casamento, um rapaz bem-falante, de boa figura. Três histórias. Três vidas. Três separações. Três Personagens: Manuel, Alberto e Maria. Um Tríptico de sonhos que principiam o acaso. Dos três só um sabe que os sonhos são de construir. Qual deles? Cabe ao leitor descobrir. Este é um livro sobre pessoas, para pessoas, onde se fala de vidas por vidas serem pessoas e pessoas serem vidas. Não querendo, consciente de que já estando, desafiar a vossa paciência, termino dizendo-vos que não conheço outra forma de falar da vida senão esta, falando das pessoas. E embora vos possa parecer que não estive, durante esta minha apresentação, ou quase, a falar do livro, não fiz outra coisa e isso me dirão quando o tiverem lido.

Margarete Silva

Braga, 04 de Junho de 2011

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