A Mentira Neoliberal (1/3)

A retórica neoliberal apanhou muito boa gente num emaranhado argumentativo do qual é difícil sair. Aqui vai o meu contributo: desmistificar três grandes falácias liberais que povoam o discurso político actual.

Não pretendo aqui dar ares de quem percebe muito do assunto. Eu li a minha quota de autores mas não me afirmo um politólogo ou algo que pareça. Falo da minha sensibilidade. Também não pretendo ser inovador. Aliás, infeliz mesmo é que eu venho aqui repetir ideias que já há muito foram escritas e cujas questões de base já há muito devíamos ter ultrapassado.

1ª Falácia: O Mercado gere-se a si próprio.

Esta é uma mentira que já vem de longe. O argumento que sustenta toda a ideologia neoliberal é o de que o Mercado, ou seja, a meta-instituição composta pela união das empresas mais fortes e os seus respectivos interesses (embora na retórica neoliberal aqui estejam incluídas as pequenas empresas, mas a sua influência é, no máximo, residual), deve funcionar sozinho e gerido apenas pelas regras da competição, sustentando-se a si próprio num sistema de uma perfeição matemática louvável.

Infelizmente para os neoliberais, existem algumas inconsistências neste argumento:

1) Em primeiro lugar (e este, aquele que para mim me parece mais importante), pretende-se que a economia seja o menos regrada possível. Isto implica relações de trabalho efémeras, compra e venda indiscriminada de recursos e exploração desimpedida. A História recente de despedimentos colectivos, de catástrofes ecológicas e de excesso de trabalho e precariedade de vida (não simplesmente de trabalho: de vida) fala por si mesma.

2) Não é verdade, nem nunca foi, que o Mercado se regula a si próprio. Quem não acredita na influência da elite bancária, assim como das grandes petrolíferas e das grandes empresas de telecomunicações (estou a olhar para ti, Google) claramente necessita de uma lobotomia frontal. A própria corrente de investimentos é influenciada pelo mais ligeiro desvio das agências de rating, que lidam com informação facilmente manipulável pelas grandes empresas internacionais.

3) Deixar os mercados “em paz” implica, como veremos, a sua reificação perante o próprio poder dos Estados. Isso implica que o poder dos grandes CEO’s deste mundo se torna, na agenda neoliberal, mais abrangente do que o mercado, estendendo-se, através da desregulação deste, à própria máquina Estatal. A conquista democrática não significa nada perante a opinião de um grande bancário. A situação actual de Portugal é exemplo claríssimo de como o interesse privado, actualmente, pode tomar um país, governá-lo e moldá-lo de acordo com a sua vontade. Não há “lógica de mercado” que se sobreponha a este facto.

4) Toda esta argumentação centra-se num novo retorno à ideologia do darwinismo social e da meritocracia. O argumento neoliberal é que sim, existem pessoas mais poderosas que outras mas, continua, qualquer um pode atingir essa posição de poder, porque o Mercado é justo e quem for merecedor, ou seja, quem trabalhar árdua e incansavelmente, pode chegar a essa posição. Seguidamente, prova-se este ponto de vista com um par de exemplos arbitrários e escassos de um pobretanas que morreu bilionário.

Esta lógica euromilhões da vida, que dita que qualquer um pode vir a ser feliz e que o trabalho duro compensa, não podia estar mais longe da verdade. O que acontece é que ascender de classe social é quase tão raro como ganhar o euromilhões, na medida em que a lógica competitiva do capitalismo dita que só o “melhor” atinge o topo. Ora, este “melhor” implica:

a) educação

b) saúde

c) cultura

d) dinheiro

e) oportunidade

f) sorte

…isto, se não contarmos a batota e a ilegalidade. Infelizmente, meu amigo, afinal, o capitalismo não calha a todos.

A seguir veremos como o argumento neoliberal ataca politicamente com a retórica do Estado “demasiado grande”.

Parte 2

Parte 3

3 thoughts on “A Mentira Neoliberal (1/3)

  1. Pingback: A Mentira Neoliberal (2/3) | Sentidos Distintos

  2. Pingback: A Mentira Neoliberal (3/3) | Sentidos Distintos

  3. A escravidão actual é voluntária e a moeda de troca é o dinheiro. Escravizamo-nos para conseguir mais daquele papel, que é produzido pelos bancos nacionais e internacionais, que o têm de volta com juros ou ganhos. e que nós os escravos lhes devolvemos de novo para pagar o que eles fabricam e que nós compramos, torna-se assim num ciclo sem fim de exploração do ser humano

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