A inevitabilidade da austeridade, os papagaios do regime e o coro dos filhos da puta

Um dos principais, senão mesmo o principal, vector argumentativo para a justeza das políticas de miséria que nos têm sido impostas (e continuarão a ser, caso não as combatamos) é o da inevitabilidade. Economistas, gestores e especialistas de tudo e de coisa nenhuma empurram-se defronte das câmaras da TV para nos emprenhar os ouvidos com o tão repetido discurso da inevitabilidade.

Segundo este, a crise mundial que nos afecta não consiste apenas em mais uma crise cíclica do capitalismo, a qual, numa fase decadente deste sistema económico, marcado pelo gigantesco carácter especulativo do capital financeiro hegemónico, torna necessário um alargamento do mercado capitalista para sectores da economia outrora detidos pelos Estados, a par da sobre-exploração dos trabalhadores, seja através da precarização dos seus direitos e vínculos laborais ou da absorção de quantidades imensas de mais-valia, produzida nos países periféricos, através da exportação estratégica de capital e consequente cobrança de dívida a juros especulativos.

Não. Segundo estas caixas de ressonância dos interesses de uns poucos mandadores da alta finança, a culpa é dos Estados e dos trabalhadores. A responsabilidade do estado das contas públicas em Portugal ou na Grécia não se baseia nas sistemáticas políticas de desmantelamento da indústria, pescas e agricultura, que nos deixou dependentes de importações. A responsabilidade não cabe aos governos que ordenaram obras públicas totalmente desnecessárias, como as auto-estradas, somente para alimentar as grandes empresas de construção, muito menos àqueles que alienam os serviços públicos através de PPP’s e manobras do género. A responsabilidade não assenta naqueles que gastam milhões em armamento obsoleto e em guerras do petróleo.

Não, camaradas! Não foram estas medidas que trouxeram o desemprego, a miséria e uma dívida que é cada vez mais impagável. Absolutamente não, dizem os papagaios do regime.

Então, de quem são as culpas?

Foi a mandriice dos funcionários públicos, a teimosia dos trabalhadores e o conservadorismo dos sindicatos. Foi a teimosia em defender essa coisa pesada que dá pelo nome de “Estado Social”, que até pode funcionar para outros povos, como os escandinavos, mas nunca para os subdesenvolvidos latinos e gregos, povos culturalmente atrasados, que o que verdadeiramente precisam é de caudilhos de pau feito e Estados cada vez menos soberanos, entregues aos abutres da finança europeia.

É inevitável, dizem eles, não há riqueza, não se produz, repetem outros, enquanto se escondem atrás de sofismas os lucros astronómicos da banca e das maiores empresas cotadas na bolsa. Não há maneira de aumentar as receitas dos Estados, seja através de uma reforma fiscal ou da socialização da economia, de forma a impulsionar um programa de obras públicas para gerar emprego. Não, seus comunas de uma figa!

Não, mil vezes, não! É necessário reduzir a despesa, os gastos excessivos dos palermas da função pública e afins (poupar essas migalhas, comparado com os dinheiros que escapam ao fisco através da evasão fiscal, PPP´s, privatizações, etc. Mas não olhemos a isto, camaradas, foquemo-nos no essencial…!).

É imperativo sufocar esses preguiçosos dependentes do RSI, que vivem à conta do Estado, auferindo somas estrambólicas que rodeiam os 150 euros! É necessário linchar e retirar os proventos dos cerca de 12% de filhos da mãe que se recusam a trabalhar em Portugal! Afinal, o que não falta por aí é emprego, só é preciso procurar, não é? É imperioso privatizar, porque a ignorância é tanta que não é possível entregar os serviços públicos a uma estrutura pública que tresanda a “povo”, essa massa ignóbil, assente no seu pesado Estado Social!

Sim, camaradas, a culpa é vossa! Deram-se ao luxo de comer carne de vaca e comprar um carrito para a vossa filha. Deram-se ao despudor de pensar em comprar uma casa, uma televisão e uma máquina de lavar louça. Deleitaram-se em sonhos de trabalho estável, com aumentos progressivos de salário e uma vida confortável! Deram-se à irresponsabilidade de achar que poderiam viver sem miséria…

Tsc, tsc, camaradas, acordem para a realidade!

Entreguem a economia aos “responsáveis” grupos financeiros, que eles é que percebem disto. Deixem de sonhar com a gestão democrática da coisa pública. Sigam o exemplo dos banqueiros e do Pedro Passos Coelho, tão poupadinhos e responsáveis que são, pobres homens… Acreditem, não é a necessidade de conter a queda da taxa de lucro que move o coração destes corajosos paladinos da austeridade. Eles lutam pelo benefício de todos nós, com determinação por um Portugal melhor, com políticas de responsabilidade, confiança, ……….

[Rompe-se a fita da cassete]

… Ou então, acordem para a vida, realizem-se de quem vos empurrou para esta situação, tomem o futuro nas vossas mãos, agarrem o capital pelos tomates e exijam uma economia socializada, democraticamente gerida por todos nós! Apenas temos a perder a fome e miséria que se aproxima. Acabemos com o coro de filhos da puta que proclamam a inevitabilidade de uma vida de merda!

(Parafraseando o Nel Monteiro, perdoe-se a linguagem, mas não tenho outra melhor)

2 thoughts on “A inevitabilidade da austeridade, os papagaios do regime e o coro dos filhos da puta

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