Internacionalismo precisa-se!

Acabo de ver mais uma notícia em que, ontem, o povo grego voltou a manifestar-se e a entrar em confrontos com a polícia que chegou a lançar gás pimenta (parece que o lacrimogénio já não é suficiente. Ainda gostava de saber quanto é que o Estado gasta nisto). Antes tinha visto uma sobre o próximo Conselho Europeu para o qual o novo Ministro dos Negócios Estrangeiros e Primeiro-Ministro estão a preparar-se avidamente.

Arrisco a fazer uma previsão do que vai acontecer:

Os chefes de Estado dos outros Membros da União juntamente com essas três instituições tão democráticas que dão pelo nome de Banco Centrar Europeu, Comissão Europeia e Fundo Monetário Internacional vão debitar tudo o que o novo governo vai executar e Passos Coelho vai responder, entre sorrisos, que “até vamos além do proposto!” Entre expressões de regozijo por parte da troika e elogios de como Portugal é tão bem comportado, eu sentir-me-ei envergonhada. Receber louvores de uma entidade que já começou a dar cabo das nossas vidas, e fá-lo todos os dias aos irlandeses, ao espanhóis e, em especial, aos gregos, dá-me náuseas.

É por isso que quero exprimir aqui a minha solidariedade com todos os povos dos países europeus que estão nas mãos de uma elite que perdeu qualquer capacidade de reconhecer o ser humano noutro que não nela mesma e nos seus pares. O facto de os deputados do PASOK terem viabilizado uma moção de confiança ao novo governo não obstante os inúmeros e generalizados protestos nas ruas gregas, é um exemplo desta distância e indiferença.

Em última análise, o capitalismo retira qualquer elemento humano à classe trabalhadora. Os que comandam os destinos do mundo não são capazes de identificar nada mais além de factores de produção, custos salariais, juros e lucros. O imperialismo, que constituí a última forma de executar o capitalismo, opera justamente através dessa desumanização. Não se pode invadir territórios, colonizá-los, sem um elemento de diferenciação entre os seres humanos, não é o simplesmente “dividir para reinar”, é mais profundo ainda, é o desprezo, é o racismo que está aqui presente. Não admira, portanto, que desde o início desta crise, os povos dos países periféricos sejam alvo de insultos dessa natureza. É um sintoma do que acabei de descrever. O facto de entidades supra-nacionais não democráticas exigirem a execução de medidas contra as quais os povos já deram mais que provas de que não aprovam, é uma forma de contornar a Democracia, é uma forma de colonialismo. As decisões de fundo, capazes de inflenciar as vidas de milhões para as próximas décadas, são decididas na metrópole dos gabinetes de Frankfurt, Luxemburgo, Bruxelas, na City de Londres e, claro, em Wall Street.

A função premente dos activistas de esquerda é trazer de volta a solidariedade e capacidade de identificação com o outro através do Internacionalismo. Só assim poderemos derrotar o capitalismo. Neste contexto não há outra possibilidade. Razões para nos identificarmos com os gregos, com os irlandeses e os espanhóis, numa palavra, com a classe trabalhadora europeia, são de sobra. Temos de reforçar os contactos, as redes, os planos, as actividades, os protestos, a informação, as experiências para que se crie uma frente popular comum e internacional que force uma mudança de sistema. Não basta ficarmo-nos por noções vagas de democracia real ou verdadeira. Noções vazias dão azos a que sejam preechidas pela extrema-direita o que é um perigo real numa Europa que virou claramente à direita. É necessário ser explícito nos nossos objectivos e na forma como os queremos atingir. É ainda necessário desfazer a ideia de que os partidos são todos iguais e de que os sindicatos não se mexem. Não são e não é assim, é importante dizê-lo sem qualquer melindre.

Portanto, quando amanhã Portugal receber os elogios por ser tão bom aluno, não nos sintamos aliviados pois só significa uma coisa: distância e divisão dos que já estão piores que nós e uma caminhada em passos largos para chegarmos ao mesmo ponto.

P.S.: quero fazer a ressalva de que não estive presente em nenhuma das assembleias populares no âmbito do Movimento Democracia Já! realizadas recentemente em algumas cidades do país e, portanto, sei que corro o risco de estar a repetir o que já foi dito nas mesmas quando se apontaram caminhos de actuação. Feita a ressalva, creio que nunca é demais repetir estas ideias e além de que através desta plataforma poderei chegar a novos ouvidos.

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