É necessário um novo partido de esquerda? (Parte II)

Como vimos, o fenómeno dos partidos “anti-capitalistas” revelou-se progressivo para a consolidação de uma esquerda revolucionária. Neste momento, na minha perspectiva, deixou de o ser, conquanto alguma da sua progressividade se mantenha somente no plano eleitoral. Além da insuficiência programática, ao nível estratégico, como referimos supra, acresce a burocratização definitiva do BE. Neste momento, apesar da existência de uma democracia interna formal, ao contrário do que acontece no PCP, as alas esquerdas do partido são permanente e conscientemente sufocadas pela direcção, ao passo que a militância organizada foi reduzida a meia dúzia de quadros seguidistas e acríticos. Por fim, a sua política de aproximação à social-democracia e ao PS marcou o ponto de ruptura. Reforçar as fileiras do BE, no contexto actual, equivale ao reforço de sectores oportunistas e  de influências pequeno-burguesas no seio do movimento político dos trabalhadores.

De facto, o capitalismo já deixou bem claro que irá prosseguir a sua escolha, que é a de deitar as consequências da crise sobre as espaldas dos trabalhadores. A carestia e a miséria generalizada potenciarão um período de radicalização. Para que a etapa pré-revolucionária se desenvolva para uma revolucionária continua a faltar o factor subjectivo da existência de uma direcção política revolucionária. Nem o BE, nem o PCP, para não falar dos outros pequenos partidos de esquerda, como o PCTP/MRPP ou o POUS (marcados pelo sectarismo ou pelo estalinismo, ou por ambos), estarão à altura desta tarefa histórica. Recorrentemente, BE e PCP tentarão dar um escape à tensão social através da via eleitoral, sem nunca se afirmarem como alternativa de governo, além de o PCP colocar o seu freio habitual sobre o movimento sindical. Seja um BE radicalizado, centrista ou social-democratizado, ele nunca procurará sair do âmbito democrático-burguês do qual depende materialmente. Esta realidade, mais do que nunca, desvela a actualidade da necessidade de um partido revolucionário dos trabalhadores.

No caso do BE, vislumbra-se um futuro turvo: a ala direita do partido, liderada por Daniel Oliveira, mostra-se ambiciosa, e já fez, inclusivamente, alguns membros da direcção bloquista perder as estribeiras, como foi o caso de Luís Fazenda. Existe a possibilidade, de facto, de virmos a constatar uma progressiva direitização do BE, caso Oliveira e os seus apaniguados ganhem posições no partido, o que poderia levar ao desprendimento de algumas franjas à esquerda. Existe, também, a possibilidade de as alas direitas do BE formarem um novo partido da esquerda reformista, junto com outros sectores sociais-democratas. Neste último caso, o BE poderia manter o seu percurso centrista ou radicalizar-se um pouco à esquerda. Seja como for, os preconceitos parlamentaristas, pequeno-burgueses, da sua direcção nunca permitirão uma “revolucionarização” do BE.

Até este momento, não houve condições para construir a alternativa política revolucionária necessária fora dos aparatos dos partidos de massas, como o BE. No entanto, a existência de uma vanguarda fora dos aparatos partidários e sindicais, o descontentamento crescente que não cabe nas estruturas partidárias do regime democrático-burguês, assim como o descontentamento de uma ala esquerda do BE, que apenas não corta os laços formais com o mesmo porque não existe uma alternativa política fora dele, mostram que é possível romper o ciclo e fundar essa organização revolucionária. Será diminuta, ao início, é certo, porquanto as direcções reformistas (ainda) possuem carisma sobre a classe trabalhadora. Seja como for, essa reorganização política da esquerda revolucionária é absolutamente necessária para os tempos que se aproximam. Caso contrário, estaremos perante mais derrotas da classe, recuos sistemáticos e apelos ao “mal menor”, desmobilização, desorganização e miséria colectiva, como tem acontecido até agora.

Seria uma organização quantitativamente modesta, por certo, mas programaticamente definida, investida de uma estratégia revolucionária, mas apta a aplicar tácticas políticas flexíveis, que desçam ao plano da luta por reformas quotidianas, sem abandonar o projecto socialista e comunista. A meu ver, teria de adoptar a teoria organizativa leninista, de forma a constituir-se como um partido pronto a enfrentar não só o capital e a direita, mas também os seus agentes no seio do movimento dos trabalhadores, designadamente, o oportunismo social-democrata, seja ele consciente ou não. Um partido apto a crescer com a ascensão das lutas sociais, sempre inserido na classe trabalhadora e nos seus combates diários por reivindicações concretas. Ou seja, um partido para a acção, disposto a liderar a classe revolucionária. Tarefa hercúlea, bem verdade, e os arautos da “social-democracia de esquerda” prontamente nos irão chamar de anões em bicos de pés. É, ainda assim, uma tarefa necessária. É imperativo começar de novo.

Na verdade, o capitalismo em decomposição que nos rodeia apenas nos irá levar a crises mais profundas, conjugadas com retomas económicas cada vez mais tímidas. Sem novos mercados para conquistar, de forma a manter a taxa de lucro, o capitalismo irá aprofundar a sobre-exploração dos trabalhadores e destruir as economias dos países periféricos, de modo a alimentar as vorazes burguesias dos países imperialistas. Inclusive os trabalhadores destes países não escapam à carestia. O imperialismo irá continuar a refastelar-se com guerras genocidas para rentabilizar o capital e fortalecer a indústria do armamento. Os nossos capatazes irão tentar destruir o que resta das conquistas sociais dos trabalhadores, de forma a surripiar para o mercado capitalista os únicos recantos onde ele não chegou. Deixou de haver espaço para reformas que contenham a luta de classes. Impõe-se uma saída do quadro do capitalismo e dos regimes políticos burgueses. Mais do que nunca, é necessário um levantamento internacional, que apenas será possível com a direcção de um partido revolucionário internacionalista. Em Portugal, no contexto actual, isso passa pelo abandono da confiança nas organizações políticas reformistas.

Como alguém um dia disse, as condições objectivas para a revolução proletária não só estão maduras, como começam a apodrecer…

(Ler Parte I)

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