Resultados do BE

Ainda estou aturdida pelo resultado das eleições. Não que esperasse uma grande vitória para a esquerda, em particular, para o Bloco de Esquerda. Contudo, como militante activa que fez campanha custa sempre reconhecer resultados maus. Este post é um desabafo, é mais do coração do que da razão.

Em 2009, obtivemos no distrito de Vila Real 5,5% dos votos (cerca de 7 000). Não é nada para quem milita no litoral ou em grandes centros urbanos. Contudo, num distrito tradicionalmente conservador e desertificado, tinha sido um regalo e dava para vislumbrar uma esperança para uma mudança significativa e duradoura da composição do eleitorado do noroeste transmontano. Desta vez, ficámo-nos pelos 2,34% (2 801 votos). É desolador e desanimador mas não diferem assim tanto dos resultados nacionais. (Confesso que tinha um post muito mais elaborado sobre a campanha em Vila Real, mas, nova nestas andanças da blogosfera, perdi o rascunho.)

É necessário realizar um diálogo e um debate profundos sobre estes dois últimos anos (e aqui não uso a palavra reflexão porque me parece demasiado introspectiva e ensimesmada. Prefiro palavras sinónimas de participação e de várias perspectivas). E ao contrário do que alguns conhecidos militantes do Bloco dizem, os problemas começaram antes do apoio a Manuel Alegre ou da não discussão interna sobre a moção de censura. Respondendo concretamente ao Daniel Oliveira que acha que após as presidenciais o BE copiou o PCP, pergunto-lhe se antes não andava a copiar uma ala esquerda do PS que culminou nos resultados tão “bons” das presidenciais. Nessa altura, houve muita gente no Bloco que votou no candidato do PCP (incluindo eu). Julgo que agora passou-se exactamente o mesmo. Uma coisa é perder votos do chamado eleitorado flutuante, outra é perder votos que poderiam fazer parte de um crescimento sustentado à esquerda.

 

7 thoughts on “Resultados do BE

  1. Fazes um balanço parecido ao meu. Defendemos é respostas diferentes perante o cenário. Seja como for, abraço e força, camarada! A esquerda reformista já se auto-destruiu dezenas de vezes, ao longo da história. Comecemos de novo! :)

  2. Sofia, estava a dar uma vista de olhos e deixam-me acrescentar só mais uma coisa: a manifesta incapacidade, ou melhor, desinteresse, por parte do BE, de transformar o seu eleitorado em militância organizada. Outra das falhas estruturais do fenómeno dos partidos reformistas “anti-capitalistas”. Eles vivem e alimentam-se da actividade eleitoral.

  3. “desinteresse, por parte do BE, de transformar o seu eleitorado em militância organizada.”

    Esse é um ponto muito importante e parabéns para ti porque, em dezenas (ou centenas já) de análises sobre as causas do descalabro, é a 1ª vez que vejo isso referido.

    Sofia, dizes que muita gente do BE votou no candidato das presidenciais do PCP (do que discordo. Assim sendo para onde foram os votos da CDU, já que o candidato manteve a votação tradicional, ali pelos 7 ou 8%?); e dizes que agora aconteceu o mesmo. Essa parte não percebi: aconteceu a mesma transferência de votos para a CDU…ou para o PS?

    • Na minha perspectiva, os votos anteriormente depositados no BE transferiram-se para a abstenção, possivelmente para o PS, na sequência dos sempre forte argumento do “voto útil”, e, não sendo de somenos importância, para o PSD. Muitos dos votos que, em actos eleitorais passados, foram dados ao BE, reduziam-se em votos de protesto, não se fundamentando na aspiração a um outro paradigma governativo. Desta vez, o PSD e a abstenção arrecadaram esses votos.
      A meu ver, esta questão não é desprovida de importância, na medida em que, da mesma forma que o BE nunca se conseguiu implantar estruturalmente na base da sociedade, consolidando-se como alternativa política de transformação social, apenas uma minoria dos votos anteriormente dedicados ao BE eram votos “politizados”, isto é, votos conscientes de cidadãos cientes do projecto estratégico que estavam a alimentar, não cabendo aqui a discussão se esse projecto é honesto, correcto ou não. Caso isto se verificasse, o eleitorado bloquista seria muito menos variável.
      Este cenário, aliado ao facto de o BE/PCP não se coligarem, de forma a constituir uma alternativa de poder, foi a morte do artista. No entanto, o PCP beneficiou dos votos da sua base social, infinitamente mais politizada. O eleitorado do PCP não vota numa perspectiva de protesto, ou melhor, não apenas de protesto. Vota num projecto e numa direcção que, goste-se ou não, possui a confiança de um largo sector da classe trabalhadora. O BE nunca conseguiu, nem sequer tentou, inserir-se neste grupo social, o que inviabiliza que o partido se assuma como uma alternativa credível ao PC.

    • Por acaso não deixei esse ponto muito claro. Contudo, julgo que a análise do Tiago é esclarecedora. Suncintamente, o que queria dizer era devido à colagem à uma eventual ala esquerda do PS, perderam-se votos daqueles que, como diz o Tiago, querem votar num determinado projecto mais à esquerda. A perda desses votos é, para mim, mais grave do que perder o eleitorado flutuante que foi votar no PS ou até no PSD. Julgo que um partido como o BE que ainda está em consolidação precisa de desenvolver uma base eleitoral que, depois, lhe permita tentar conquistar outras franjas. Era isto que queria dizer.

  4. Percebi. Há um ponto que ambos,Tiago e Sofia, colocam que me parece dever ser objeto (não por mim que não sou especialista na matéria) de melhor acompanhamento e até estudo: que é sobre o facto de o BE nunca se ter conseguido implantar na base da sociedade, comparando com o PCP (ou até, porque não, com outros partidos). Não justificando tudo, creio haver aqui um fenómeno que poderia designar de forma simples por “sinal dos tempos”. O PCP, e outros partidos, têm muitos anos de existência, durante os quais formaram as suas bases de apoio e, sabe-se, isto dos partidos funciona muito como os clubes de futebol: escolhido um, é para toda a vida. Ora o BE, a base de simpatizantes ou de meros votantes que foi colhendo, é em alta percentagem constituída por jovens que não têm da intervenção social ou da política paradigmas tão rigidamente delineados como os seus ascendentes, flutuando muitas vezes em função até de “modas” do momento. O sucesso pelo número de pessoas que conseguiu juntar e a irreverência de fenómenos como a manif da Geração à Rasca, aliado à crítica geral aos partidos institucionais, foi, acho, muito negativo para o Bloco que aí viu fugirem-lhe uma grande base de votantes.
    Isto aliado à já referida falta de estruturas locais de proximidade e à inexistência de figuras a nível local de reconhecido mérito (autarquicas foram uma desgraça também por isso), explica muito dos atuais resultados, talvez mais até do que reconhecidos zigue-zagues estratégicos na “grande política”.

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