Começou a caça ao Coelho!

Mais uma vez, as eleições legislativas, além de servirem de calmante para a contestação social que se fazia sentir, expressaram de forma bastante retorcida a vontade de mudança, ou melhor, a vontade popular de “castigar” o executivo de Sócrates. O resultado foi a eleição do reaccionário e ultra-liberal Pedro Passos Coelho para a liderança do executivo, devidamente sustentado pela extrema-direita do PP. Ou seja, prevêem-se mais uns anos (será que chegam a quatro?) de ofensiva aberta do capital contra os trabalhadores, de acordo com o programa de governo, sendo ele, obviamente, o memorando da troika. Desta forma, sabemos o que nos espera: liberalização dos despedimentos, eternização e agravamento da precariedade, provavelmente o mais ousado programa de privatizações, diminuição de salários e pensões, aumento dos impostos sobre os trabalhadores, e um extenso etc. Tudo isto acompanhado de mais mordomias para os de sempre: a banca e os grandes empresários.

Pelo menos, desta vez, a população sabia de antemão qual seria o programa político que iria reger a governação do próximo executivo. Ainda assim, o populismo, a hipocrisia descarada, a manipulação dos media do regime e a política do teleponto enganaram um largo sector da população, levando ao alçamento do novo governo PSD/PP. No entanto, a esquerda que se diz anti-capitalista também teve culpas no cartório: valha a verdade, BE e PCP teimaram em não apresentar uma alternativa pré-eleitoral, ladeados por outros sectores da esquerda, com um programa de governo comum, de forma a apresentar aos trabalhadores uma alternativa clara, de ruptura com a situação política e económica. Caso esta alternativa de poder à esquerda se consubstanciasse, não tenho a mínima dúvida que ela iria mobilizar o voto de grande parte dos abstencionistas e até de muitos que cederam ao argumento do “voto útil”, acabando por votar no PS. Por outro lado, seria uma óptima oportunidade de apregoar a necessidade real de um governo de esquerda, que implemente um programa socialista para sair da crise, através da estruturação de uma economia forte e socializada, além de uma repartição justa da riqueza produzida, entre aqueles que a produzem.

Há uns meses atrás, quando propus aqui uma coligação pré-eleitoral entre BE-PCP, aliados outros sectores minoritários da esquerda e dos movimentos sociais, indaguei se o sectarismo recíproco que afectava BE e PCP se devia ao receio, por parte de ambos os partidos, de perderem o seu “feudo” eleitoral, ou se, pelo contrário, se baseava no próprio receio de governar, porquanto estariam cientes de que a aplicação de um programa verdadeiramente socialista abalaria as fundações do regime, algo que não interessa a nenhuma das duas organizações. De facto, no caso do BE, nem sequer o seu cantinho eleitoral conseguiu aguentar, visto que perdeu metade dos deputados que anteriormente detinha. Além do PS, o BE é o grande derrotado destas eleições, digo isto com pesar, pois o que mais queria, nestas eleições, era uma esquerda mais forte. Ou melhor, uma esquerda no governo.

O BE terá de reflectir sobre todos os erros que cometeu no passado, que afugentaram o seu eleitorado mais fiel. Pela primeira vez na minha vida, numas legislativas, consagrei o meu voto à CDU, como disse num post anterior, constatando, além disso, a existência de inúmeros casos semelhantes ao meu. Deste modo, se o BE quer sobreviver como uma alternativa, terá de repensar a linha política perseguida nos últimos anos. Terá de equacionar qual o caminho a seguir: prosseguir nesta via de social-democratização, de institucionalização, de aproximação ao PS. Ou se, antes pelo contrário, prefere seguir o caminho da radicalização à esquerda, em diálogo com o PCP, e apontar as baterias para a metade da população que está tão saturada das alternativas oferecidas que nem se dá ao trabalho de confiar o voto em nenhum partido. São mais de 40% votantes, dos quais muitos são trabalhadores profundamente descontentes com a sua condição miserável. É a esses que a esquerda de ruptura se deve dirigir. Na minha óptica, a direcção do BE não fará, como nunca fez antes, a auto-crítica necessária, e os abutres da ala social-democrata do partido, liderados por Daniel Oliveira, já se começam a acercar da carcaça de Louçã e seus apaniguados.

Desta forma, apenas espero que, assim que o oportunismo se apodere definitivamente dos órgãos directivos do BE, comece a tão necessária reorganização da esquerda, na perspectiva da formação de um partido revolucionário, que canalize o descontentamento para onde ele deve ser dirigido: para o derrube de um regime político que transforma a igualdade e liberdade em conceitos hipócritas, além de um sistema económico inerentemente iníquo.

Na verdade, penso que devemos tentar encontrar um lado positivo em tudo, até na vitória da direita nas recentes eleições. Por um lado, o esgotamento da esquerda do regime pode acelerar o processo de construção de novas alternativas políticas, verdadeiramente anti-capitalistas. Por outro lado, historicamente, os governos do PS souberam que nem ginjas ao capitalismo, na medida em que, devido à sua influência nas organizações sindicais e no seio da classe trabalhadora, sempre souberam conter mais eficazmente a contestação social. Os governos da direita caceteira têm dificuldades acrescidas, porquanto não beneficiam da mesma influência na classe trabalhadora, fazendo a balança pender para esquerda, porventura para um patamar de radicalização acentuada, onde a tal esquerda revolucionária deverá encontrar o pasto necessário para se alimentar e crescer. Preparemos a luta social, para encontrar novos caminhos! Os tempos tenebrosos que se aproximam podem ser uma oportunidade para começar verdadeiramente de novo. Preparem as armas, abriu a caça ao Coelho!

5 thoughts on “Começou a caça ao Coelho!

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