Domingo, votar contra a miséria e a austeridade selectiva!

Antes de mais, clarifiquemos os seguintes pontos: na minha perspectiva, estas eleições têm uma relevância bastante limitada, no que toca a uma hipotética transformação social. A cura para a enfermidade do nosso país não será descoberta no dia 5 de Junho muito embora, em épocas de campanha eleitoral, o que mais abunda por aí são D. Sebastiões, prontos a salvar a pátria. O próximo acto eleitoral somente tem interesse em dois sentidos: primeiro, aproveitar esta época, em que a população está mais “receptiva” à política, para propalar a necessidade de um governo de esquerda que dê uma volta a isto; segundo, para alargar o campo da esquerda anti-neoliberal no parlamento.

 Como se sabe, o programa de governação para os próximos anos, o programa da Troika, está definido de antemão, facto que denuncia, como duplamente mentirosos e hipócritas, os dirigentes dos partidos que assinaram o acordo com o FMI, mas apresentam programas díspares daquele, particularmente, os de “esquerda”, como o PS. Consequentemente, a nossa escolha é facilitada: ou se vota favoravelmente ao programa da UE/FMI ou contra este programa. Simples, não é? No caso de alguém suster que este país precisa da diminuição dos salários e pensões, da privatização dos serviços e da banca pública, de mais benesses para os patrões e para os bancos, do aumento dos impostos sobre os mais carenciados, da perpetuação e aumento da carestia e do desemprego, da redução dos apoios sociais e da destruição da economia nacional, então, o seu voto pertence ao quadradinho do PS, do PSD ou do CDS-PP.

 Se, pelo contrário, pensa que o empréstimo do FMI só ajuda os banqueiros e grandes patrões, que é necessário uma política de esquerda que inverta este caminho, no sentido de uma reforma fiscal que obrigue a pagar mais impostos quem possui mais riqueza, do reforço dos serviços públicos e da revogação das parcerias público-privadas, do fim da evasão fiscal e da pouca-vergonha dos off-shores, da taxação da bolsa e das mais-valias urbanísticas, do investimento público para criar emprego ou do reforço das protecções sociais para os mais desprotegidos, nesse caso, o seu voto deve ser dirigido para a CDU ou para o BE.

No entanto, ressalvo, para que nada fique por esclarecer, que, mesmo entre estas duas organizações, há escolhas a fazer, posto que não é possível votar em dois partidos ao mesmo tempo. Durante anos da minha vida, militei no BE, com a percepção honesta que estava a contribuir para a refundação da alternativa socialista em Portugal. Depois de meses de afastamento, decidi oficializar a minha ruptura com o partido, como foi público, na época. O timing escolhido para formalizar a minha saída não foi fortuito, porquanto, este partido tem caído nas maiores incongruências, ao longo dos últimos anos, algumas delas difíceis de perdoar para quem se diz anti-capitalista. Enumero, aqui, as mais importantes: primeiro, a trapalhada de Sá Fernandes nas eleições autárquicas, que deixou líquido que quem manda no BE não são os órgãos democraticamente eleitos pelos militantes de base, mas sim a cúpula burocrática do partido. Segundo, o vergonhoso apoio à ida do FMI para a Grécia, assunto que, vista a nossa situação política actual e a posição que o BE mantém sobre ela, escuso de aprofundar. Terceiro, o não menos vergonhoso apoio a Manuel Alegre, erro político que a direcção do BE, atrapalhadamente, tentou “apagar” através da apresentação de uma moção de censura “para inglês ver”. Quarto, o apoio à ida da NATO para a Líbia, que contribuiu para transformar uma revolução justa em mais uma sanguinária guerra do petróleo, além de mostrar como um candidato bloquista pode romper o programa pelo qual foi eleito, sem que seja minimamente responsabilizado por isso.

 Como qualquer pessoa poderá avaliar, estes desvios não são de importância despicienda. No entanto, o pior erro deles todos é a falta da autocrítica necessária. Todas as pessoas e todos os partidos cometem erros, muitas vezes com boas intenções, que facilmente seriam atenuados caso os dirigentes fizessem uma autocrítica, que se impõe nestes casos, e tentassem retroceder no caminho escolhido. No BE faz-se precisamente o contrário: defende-se os erros como se de princípios se tratassem e agarram-se a eles com uma atitude basicamente clubística. Seja como for, questões internas pertencem aos órgãos internos dos partidos. O que é relevante aqui é que este tortuoso caminho fez-me perder confiança no BE e, consequentemente, este partido não beneficiará do meu voto.

 Assim, resta a CDU. Por muito crítico que seja do comunismo da linha oficial, sei o que esperar deste partido. O PCP não tem uma história imaculada, bem longe disso, nem vale a pena entrar por questões mais estratégicas e ideológicas, mas ao menos sabemos o que esperar dos seus deputados. Para o bem e para o mal, o PCP tem sido coerente. Assim, a CDU terá, pela primeira vez numas legislativas, o meu voto.

 Para concluir, ressalve-se que tanto o PCP como o BE tem responsabilidade no cartório pela realidade miserável que se aproxima. Estas duas forças recusaram um entendimento pré-eleitoral, para que se constituíssem numa alternativa de poder. Deste modo, muitos dos votos dos trabalhadores irá para o PS, pois o argumento do voto útil tem peso entre a população trabalhadora, quer se goste, quer não. Caso PCP e o BE avançassem unidos, os trabalhadores e a população teriam uma alternativa clara, com um programa de esquerda, que teria reais possibilidades de formar governo. Ignoro os motivos porque ambos os partidos recusaram esta via, mesmo sob a pressão das suas bases. Talvez porque se contentem em manter os seus feudos eleitorais, sem interpenetração de interesses, ou porque talvez saibam que é preciso muita coragem para aplicar um programa verdadeiramente socialista ao nível governativo. Uma política verdadeiramente socialista implicaria um abalo nas fundações do próprio regime político e do sistema económico. Historicamente, as forças da esquerda reformista vacilam perante essa responsabilidade. O problema é que, face à falta de coragem destas, carecemos de uma alternativa revolucionária que assuma a gigantesca tarefa de transformação da sociedade. Essa apenas poderá ser construída no fragor da luta social, processo mais importante do que mil eleições.


P.S: Excluí, conscientemente, desta análise, os partidos minoritários da esquerda anti-capitalista, isto é, o POUS e o PCTP/MRPP. Tal acontece não porque eu nutra alguma antipatia relativamente a estas organizações, mas simplesmente porque não vislumbro qualquer alternativa política consistente nelas. Desconheço qualquer trabalho destes partidos nos movimentos de base e apenas sou confrontado com a sua existência de quatro em quatro anos. Além do mais, são fenómenos puramente super-estruturais, sem qualquer implantação real na massa trabalhadora, e não perspectivo qualquer tendência de crescimento da sua parte. É, no entanto, óbvio que, quando ocorrer uma reorganização política no campo da esquerda revolucionária, os seus militantes terão um papel a cumprir. Esperemos que, nessa altura, não sejam afastados por motivações sectárias, tal como aconteceu com o PCTP/MRPP aquando da fundação do BE.

 

6 thoughts on “Domingo, votar contra a miséria e a austeridade selectiva!

  1. Porque é que o Jerónimo anda a negociar formas de pagamento da dívida que só serve os bancos?! Eu vou votar no único partido que afirma que os portuguese não t~em de pagar uma dívida contraída só para ajudar a banca… VOU VOTAR MRPP!

  2. Concordo consigo no que toca à dívida, muito embora não tenha o mesmo sentido de voto. De qualquer forma, o importante é votar à esquerda. Se o PCTP/MRPP conseguir eleger um deputado, ainda bem.

  3. Tiago,
    O voto também deve ser inteligente.
    Relativamente ao que diz sobre algumas críticas que faz ao BE (um suposto apoio à entrada do FMI na Grécia, um suposto apoio da intervenção da Nato, não me manifesto sobre o “caso” Sá Fernandes pq não conheço devidamente o processo), não será agora a melhor altura para debater essa matéria. Mas na outra discussão, a do voto, penso que os eleitores de esquerda devem ter um pouco da inteligência, que às vezes parece faltar às respectivas direções partidárias. Em outros locais não sei, mas nos casos de PORTO e BRAGA, (creio que também AVEIRO) e mais alguns a norte, a terceira força política é o BE, e a escolha para o último deputado a entrar é entre o BE ou o CDS. No Porto a CDU elege 2 e não tem hipótese de mais, assim como em Braga 1. As hipóteses para a eleição de mais 1 deputado no Porto são do BE (passava a 4) ou do CDS. A entrada de mais 1 deputado em Braga (passava a 2) é entre o BE e o CDS.
    Também é preciso ter isto em conta na altura do voto.

    • Certamente que haverá variantes dessa espécie, mas como percebe, não faria muito sentido entrar em tal particularização geográfica neste texto. Como disse acima, a meu ver, o importante é o reforço da esquerda nestas eleições. Aliás, sempre defendi uma plataforma eleitoral formada entre os PC, o BE, representantes dos movimentos sociais e partidos de esquerda minoritários. Isso facilitaria ainda mais as nossas escolhas.

      • É evidente que não poderia, num post, estar a fazer a cartografia do voto. Mas isso, penso, é uma coisa a que, também, os eleitores de esquerda, cada um, não podem estar alheios. E é, como diz, mais um exemplo de como uma plataforma eleitoral o mais alargada possível, com base num programa mínimo, poderia aproveitar tanto voto desperdiçado.

  4. Pingback: Começou a caça ao Coelho! | Sentidos Distintos

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