Acampada do Rossio – uma espécie de balanço e perspectivas

Foi uma acção interessante e globalmente positiva, a Acampada do Rossio. Surgida na sequência dos protestos no Estado Espanhol, à semelhança do que aconteceu em centenas de cidades, a Acampada animou debates diários, nas bem participadas Assembleias Populares. A primeira semana foi uma experiência única: camaradas que nunca tinham posto um pé numa assembleia, muito menos falado em público, de repente viram-se a debater política nacional e internacional, além de partilhar os seus anseios e frustrações. Organizaram-se grupos de trabalho e de debate dos mais variados temas, que depois expunham as suas conclusões nas Assembleias Populares. Pela primeira vez, organizações políticas da esquerda anti-capitalista reuniram-se num espaço comum e debateram fraternalmente. Numa convergência inédita, anarquistas e ecologistas reuniram-se com a supra referidas organizações, de forma a encetar esforços por uma transformação social que é cada vez mais necessária. Esta é, a meu ver, a grande vitória do movimento iniciado a 19 de Maio.

Para mim, mais importante do que a Acampada em si, as Assembleias e os grupos de trabalho foram o elemento central deste movimento. É, portanto, com agrado que encaro a decisão de as manter, mesmo após o fim da Acampada, o qual foi deliberado ontem. É importante continuar a participar nas Assembleias que aí virão, assim como nos grupos de trabalho, de forma a fazer crescer estes pólos contestatários, especialmente numa etapa em que as organizações tradicionais da esquerda estabelecem as usuais tréguas eleitorais, além das férias de verão, que tanto os sindicatos como os partidos impõem como “intervalo” na luta social.

A primeira semana de Assembleias, como disse, foi deveras produtiva, com discussões em processo crescente de politização e consequente tomada de posições concretas sobre questões que afectam os trabalhadores e a população portuguesa. Repudiou-se a entrada do FMI, a destruição dos serviços públicos, questionou-se a legitimidade da dívida pública e proclamou-se a solidariedade com os trabalhadores em luta, como é o caso dos ferroviários. Esta semana de trabalho culminou com uma manifestação bastante combativa na Av. Da Liberdade, na qual participaram cerca de 1000 pessoas, apesar de todas as vicissitudes que acompanharam a organização da manifestação, como o facto de ter sido preparada em apenas 4 dias.

No entanto, nem tudo são rosas. Penso que será benéfico identificar a “doença infantil” que atacou este movimento, em plena fase de crescimento. Já na própria Assembleia do dia da manif, isto é, a 28 de Maio, começaram-se a verificar os problemas que, na minha modesta opinião, iriam apressar a morte do movimento: os mesmos elementos que sistematicamente se dedicam a combater a influência dos partidos e organizações políticas no seio do movimento, utilizaram precisamente a metodologia mais bruta do partido mais grosseiro, ao tomar controlo da Assembleia e tentar impor um sistema de votação, ao qual eles chamam “consenso”, termo que, neste contexto, eu traduziria como “direito de veto”. Devemos ter em conta que muitos dos activistas lá presentes militam em movimentos constituídos, a maior parte das vezes, por uma dúzia de pessoas. Querer aplicar o mesmo sistema de votação a Assembleias que se querem massivas é um suicídio do movimento, como meio de contestação. O exemplo perfeito disso foi o último manifesto saído da Acampada de Madrid que, entre outras coisas, exigia a “separação dos poderes”. Exigências que até o Manuel Alegre assinaria, portanto. Isto é, tal metodologia de tomada de decisões transformaria o movimento numa faca romba, impediria a tomada de posições de ruptura, verdadeiramente revolucionárias, e inviabilizaria uma progressiva politização do movimento, que eu concebo como necessária para uma intervenção transformadora na sociedade. Por outras palavras, tornaria as Assembleias em meras tertúlias de discussão de temas abstractos, quando o que se precisa é de grupos que debatam, mas, sobretudo, que intervenham sobre as questões concretas que afectam os mais oprimidos pela situação actual. Ora, com o “consenso”, acabaríamos a demandar coisas tão “consensuais” e abstractas como a “separação de poderes”. Para isso, já temos as organizações reformistas sociais-democratas.

Esta metodologia de votação foi sistematicamente proposta e sucessivamente rejeitada. O que não deixa de ser caricato é que, mesmo assim, os proponentes não se conformavam com a opinião da esmagadora maioria e voltavam sempre a avançar a mesma proposta, originando discussões exaustivas, nada profícuas, que apenas contribuíram para afastar as pessoas e alimentar sectarismos. Tudo em nome da democracia, está claro.

Isto tudo acontecia ao mesmo tempo que se criticava o “afunilamento ideológico” do movimento, ou seja, a tomada de posições sobre temas concretos, como o trabalho com direitos, a defesa dos serviços públicos ou a questão palestiniana. Portanto, críticas de quem pensa, decerto, que se pode erigir uma abstracta “democracia verdadeira” sem defender a democratização da vida quotidiana das pessoas. Como se pudéssemos chegar à população geral sem concretizar as nossas reivindicações junto dela.

Enfim, podia continuar, mas penso que perceberam a ideia: após uma semana de discussão frutífera, o movimento foi abalroado por tendências anarquizantes, que, a concretizar-se os seus intentos, transformariam as Assembleias em órgãos de discussão perene e acção nula. Sectores que concebem a Acampada e as Assembleias como um fim, e não como um meio para transformar a sociedade.

Não quero que isto se entenda como uma crítica cega. Pretendo, tão-somente, apontar os erros que podem, de facto, inviabilizar a continuidade do movimento e que devem ser tidos em conta no futuro. O importante, de qualquer forma, é que os contactos e redes foram estabelecidos, criaram-se os grupos de trabalho, nos quais todos devemos participar, de forma a construir um movimento que promova uma intervenção consequente na sociedade.

A título de exemplo, chamo a atenção para o facto de que, na sequência destas Assembleias, foi constituído um grupo de trabalho que, ao longo do próximo ano, participará no esforço promovido para quebrar o cerco da faixa de Gaza, através da dinamização de uma campanha que possibilite o envio de apoio humanitário para os palestinianos de Gaza, junto das caravanas internacionais que se têm organizado. Esforço internacional que não teve correspondente no nosso país até este momento, mas que se iniciará agora, graças aos contactos estabelecidos na Acampada.

Até lá, apelo à participação, hoje às 18h30m, numa acção de protesto, organizada pelo grupo de trabalho das Revoluções Árabes, na Embaixada de Israel em Lisboa, onde se depositará um cravo e uma pedra da calçada, em memória dos companheiros sumariamente executados pelo exército israelita na Flotilha da Liberdade, há exactamente um ano.

4 thoughts on “Acampada do Rossio – uma espécie de balanço e perspectivas

  1. Ambicionar resolver problemas no Médio Oriente sem sequer ter conseguido organizar os debates no Rossio, é como mudar de cuecas sem lavar o cú.

  2. Parabéns, Zezinho.

    Por muito estranho que pareça sair dali uma acção de protesto contra o que se passa na Palestina, acho importantíssimo que os novos movimentos sociais tenham uma consciência global para além da local. Ainda que isso se traduza em acções meramente simbólicas ou aparentemente insignificantes.

    Pensar novas formas de se fazer sociedade obriga a reflectir as consequências desta. Há que, por isso, pôr em cima da mesa o que se sucede em termos de guerras (por petróleo, por exemplo, o grande sustento do ocidente), de neocolonialismo (exploração subhumana das grandes empresas no terceiro mundo) e de migrações (povos que fogem das suas terras devastadas por guerras pelas quais não são responsáveis, em rumo de uma Europa que as causou) para que a querida revolução não seja virada sobre si própria.

    Não sei se terá sido neste sentido que se avançou com a acção de protesto mas espero que este tipo de pensamento global e local se instale e continue.

  3. Apenas uma adenda, ninguém ambiciona resolver o conflito no médio-oriente, apenas juntar-se à caravana humanitária internacional no próximo ano. Ou seja, fazer mais do que comentar de forma nada construtiva posts em blogs.

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