As declarações de Angela Merkel

Desde que, aqui há dias, saiu uma notícia sobre os palpites da sra. Merkel acerca da reforma e os dias de férias dos portugueses, isto está atravessado na garganta.

Angela Merkel não é uma qualquer cidadã que queira expressar a sua indignação perante a diferenças entre o mercado laboral português e alemão (no dia seguinte, o Público esclareceu que o número de horas que os portugueses trabalham é bastante superior). É sim a chanceler do país economicamente mais poderoso da União, portanto, fazer este tipo de afirmações ou é de uma incompetência inadmissível ou então não é nada inocente. Creio que esta é a hipótese acertada.

Repare-se que, imediatamente após o conhecimento da afirmação, o presidente da CIP veio defender a redução do tempo de férias. É um belo apoio para as aspirações do grande patronato português, se a sra. Merkel o diz, automaticamente os governos português, espanhol e grego deveriam seguir as suas indicações. Todos nós podemos comprovar como é que as ideias alemãs concretizadas via troika têm sido tão favoráveis à resolução desta crise. O caso grego é paradigmático, nem se percebe o porquê de Papandreou aprovar novas medidas de austeridade neste fim de semana.

Contudo, sem negar a gravidade das tentativas de minar o pouco que resta da democracia portuguesa, preocupa-me as consequências a longo prazo dentro da União Europeia. Quando digo que a atitude de Angela Merkel não é inocente é porque tenho em mente que ela está a falar para o seu eleitorado cujo número não pára de diminuir (ontem mesmo voltou a sofrer uma pesada derrota ficando atrás do SPD e do Partido dos Verdes no Estado de Bremen). O que esta senhora faz é apelar ao voto usando as economias do Sul da Europa para tal. “Votem em mim e no meu partido porque eu crítico e exijo medidas draconianas aos países preguiçosos do Sul.”

A meu ver, utilizar e brincar com os receios dos cidadãos para esconder a própria incompetência, é um primeiro passo para início do fim do projecto da construção e integração europeias (ao qual eu volto a declarar o meu apoio, mas jamais, repito, jamais nestes moldes). E se todos os políticos utilizam a União para atirar culpas, este caso é grave porque está a culpar-se directamente trabalhadores de uma nacionalidade diferente, para apelar ao voto de cidadãos nacionais.

Dividir para reinar é a estratégia mais antiga do mundo, cabe-nos a nós, gente de esquerda, desconstrui-la para obter o efeito oposto. Uma Europa onde a classe trabalhadora está unida só pode ser melhor do que a actual.

P.S.: parabéns a todo os comentadores que apoiaram estas declarações, especialmente João Vieira Pereira do Expresso que consegue fazê-lo sem mencionar uma única vez a palavra salários. (O artigo não está completo por razões óbvias, mas pode ser encontrado na edição de 21 de Maio de 2011, secção de Economia.)

2 thoughts on “As declarações de Angela Merkel

  1. Perante a crescente insurreição e reorganização dos países do terceiro mundo, o liberalismo europeu precisa de novos explorados para depredar. Os países de periferia são um excelente bode expiatório.

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