A intervenção de Garcia Pereira

Não espero de mim próprio uma atitude de seguir um partido porque sim, reconhecendo do MRPP uma história muito estranha e pejada de inconsistências (de resto, faço minhas as palavras de Renato Teixeira neste assunto).

No entanto, a intervenção de Garcia Pereira na TVI surge sublime neste mar morto das legislativas de 2011. Alguém que surge, na televisão, apresentando uma agenda que não se deixa tocar pela retórica clássica e vigente do sistema político português.

Parece-me que os partidos da esquerda parlamentar se encontram num impasse absurdo que lhes limita a acção e intervenção. O assento tornou-se demasiado cómodo; é difícil, ao fim de alguns anos na política, desempoeirar o palavreado dos tiques próprios da discussão parlamentar. Ouvir o Francisco Loução ou o Jerónimo de Sousa falar em entrevista é o mesmo que os ouvir falar em comício ou em parlamento – a cassete embrenha-se e incorpora-se e é difícil – se não impossível – de desfazer.

Agora, como antes, a reivindicação destes partidos mostra-se cansada, gasta, à medida que os argumentos vão sendo rebatidos e humilhados em praça pública pela língua afiada dos sócrates e coelhos deste mundo. Vemos nas entrevistas e debates que a toda a hora inundam a TV.

Então fica aqui o conselho, de mim (que pouco sei): ouçam o Garcia Pereira. Vejam como o facto se sobrepõe à retórica. Aquilo que precisamos, mesmo, neste momento é de uma alternativa séria, sóbria, segura de si própria. No fundo, queremos partidos de esquerda com caparro para dizer as coisas tal como elas são e apresentar alternativas que o sejam mesmo – alternativas.

Que não se admire o Bloco ou o PCP de falta de força eleitoral, quando a resposta ao FMI é “epa, se calhar, podia ser feito assim menos agressivo e tal, capitalismo responsável…”. Eu, e muitos como eu, não quero meias ideias ou meias posições ou meio qualquer coisa. Determinação, porra!

A intervenção de Garcia Pereira, pondo de parte as divergências políticas, demonstra isso mesmo. Clareza de ideias, certeza de acção; identificar o que há a combater, apresentar propostas concretas e substanciadas com estudo (números!); exigir clareza e seriedade.

Por isso, circunscrevendo, um bem haja. Aguardo o debate de hoje à noite.

Num tom mais sério e passando a assuntos importantes, há que acompanhar de perto o que se passa em Madrid:

http://www.publico.pt/Mundo/protesto-pacifico-reune-milhares-de-espanhois-em-acampamento-na-porta-do-sol-em-madrid_1494660

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PS: Alguém diga à malta do Bloco e do CDU que se é para começar com a caça às bruxas do insulto a quem vota em branco/nulo/não vota, que me façam um favor desde já e verifiquem se eu não estou lá fora.

2 thoughts on “A intervenção de Garcia Pereira

  1. Gostei da parte em que ele respondeu ao jornalista que o Cavaco Silva é que concorda com ele e nada do contrário! Ehehe! Não há cá confusões!

    Sim: determinação, porra!

    E mais, cada um vota como bem quiser, por isso é que o voto é pessoal e intransmissível, não é algo que se deva alienar dessa natureza. Por isso o voto é a minha intervenção pessoal nesta política, limitadíssima mas é.

  2. Para que fique claro:

    Eu parto sempre do princípio de que quem vota (e quem não vota) fá-lo conscientemente da sua acção e que não há tantos carneiros por aí como se pensa. Para bem e para mal. Daí urgir a necessidade de um discurso claro e conciso, ‘straight to the point’, pois um voto pode ser consciente mas fundamentado em ideias erradas ou infundadas. Qualquer um pode e cai no paleio, incluindo-me aqui facilmente, que já me apanhei a anuir coisas as quais me apercebi, mais tarde, serem perniciosas.

    Parece-me que muito do discurso político dos grandes nomes destas eleições, sabendo disso, esquiva-se de falar concretamente. Acho que se Sócrates expusesse claramente o que pensa teria muito menos votos, assim como o Passos Coelho, daí partirem para a demagogia e a mentira descarada. Parece-me, também, que tanto Francisco Louçã como Jerónimo de Sousa, propositadamente ou não, caem nessa armadilha e crescentemente alimentam a meia verdade.

    Portanto, neste princípio – e apenas neste caso específico – me parece que a intervenção de Garcia Pereira foi salutar, ao apresentar ideias claras e objectivas, passíveis de crítica e discussão é claro mas sem devaneios ou areia para os olhos. É neste contexto que o aplaudo, se de resto não ficou já claro, e não do ponto de vista “ah ganda MRPP que isto é que vale”.

    Finalmente, acrescento que pretendo que este tipo de posts sejam construtivos, ou seja, que na hipótese de alguém os ler sobressaia uma vontade de mudar as coisas para melhor. Daí criticar a esquerda fundamentalmente, pois sendo politicamente de esquerda me parece importante fortalecê-la pela crítica e não embarcar em seguidismos.

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