>A agência Lusa, os anarquistas e a CGTP

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Quando chego às redes sociais, depois de um 1º de Maio bem celebrado na minha paz, vejo-me deparado com uma deprimente imagem.

Em Setúbal, um grupo de jovens foi atacado pela polícia.

Antes de mais nada: sim, foi isto que aconteceu. Não sei se houve desacatos (mais abaixo), provavelmente terá havido troca de palavras…

Ora analisemos a cobertura informativa sobre o assunto. A coisa foi relatada por duas frentes: por um lado, o informante da agência Lusa; por outro, a comunidade de internautas que assistiram ao serviço e que contribuem, por meios alternativos, com o que sabem.

O informante da Lusa diz:

Confrontos entre um grupo anarquista e forças de segurança no Largo da Fonte Nova, em Setúbal, resultaram em três feridos e várias pessoas identificadas pela PSP, disseram à Lusa fontes policiais e do Hospital São Bernardo.

O grupo constituído por algumas dezenas de anarquistas, que trajavam de negro, seguiu de perto o tradicional desfile do 1.º de Maio da União de Sindicatos de Setúbal (USS), afecta à GGTP, que partiu da Praça de Quebedo em direcção à avenida Luísa Todi, mas, segundo fonte sindical, não se registaram incidentes.

Segundo a mesma fonte, a partir de determinada altura os anarquistas acabaram por seguir outro percurso, em direcção ao Largo da Fonte Nova.

Fonte policial adiantou que os incidentes terão começado quando as forças policiais chegaram ao local e foram recebidas com o arremesso de vários objectos, depois de terem sido alertadas por populares para o barulho e para alguns comportamentos menos próprios dos anarquistas.

“Os elementos da PSP tiveram de efectuar alguns disparos de shot-gun”, confirmou à Lusa um porta-voz da corporação, admitindo a possibilidade de haver alguns feridos ligeiros.

O Gabinete de Comunicação do Hospital São Bernardo confirmou à Lusa que deram entrada no serviço de urgência três pessoas que terão sofrido alguns ferimentos ligeiros, alegadamente nos incidentes que ocorreram na Fonte Nova, mas adiantou que já todos tiveram alta.

Contactado pela Lusa, um dos participantes no que classificou como uma “manifestação anti-capitalista” e que pediu o anonimato, disse que no final do protesto, “chegou um carro de patrulha da polícia que pediu para baixar [o som] da música que vinha da mala de um carro e pediu identificação a algumas pessoas que não se quiseram identificar”.

Entretanto, prosseguiu, “chegou um carro da polícia de intervenção” ao Largo da Fonte Nova. “Tinham armas de balas de borracha e armas reais, gás pimenta e cassetetes”, tendo a polícia e os manifestantes entrado em confrontos.

“Foi um cenário desmesurado para o que se estava a passar”, concluiu.

Esta informação vem do Público. Este não identifica a informação como vinda da Lusa (um verdadeiro copy-paste) mas não faz mal: a veracidade daquilo que é apresentado no Público online vale o que vale. Seja como for, uma olhadela pela informação dos outros jornais (Sol, DN, JN) apresenta exactamente a mesma informação – o mesmo texto até, com parágrafos trocados para dar aquela ideia de trabalho – sendo que alguns até se dão à decência de identificar a fonte.

O texto da Lusa, claramente parcial, dá conta de “dezenas” de anarquistas (embora as declarações de quem falou apenas irem no sentido de dizer daquela manifestação ser anti-capitalista – ler acima -, pelo que se depreende que os “anarquistas” foram identificados por haver pessoas vestidas de preto) que se “envolveram em desacatos” com a polícia.

Ora, o problema é que diz quem lá esteve (certamente nenhum dos jornalistas dos jornais mencionados para além do informador da Lusa) que o protesto foi pacífico; que contou com duas centenas de pessoas (dezenas! claro, 20 dezenas são dezenas na mesma – ninguém mentiu!) e que a carga policial se deu sobre estas enquanto, no fim da manifestação, se juntavam num largo ao som de música e alguma festa. Que, de resto, desde o fim do fascismo, é legal. Dizem também que os feridos foram mais do que três e que houve um ferido grave. Link alternativo.

Argumentar-se-ia que as fontes que contrariam a Lusa são igualmente parciais. Certo. No entanto, o artigo do Sol não se conteve na busca das imagens deste blog – também parcial – ignorando descaradamente as delcarações de quem colocou lá as fotos, num claro caso de parcialidade jornalística que merce o mais profundo repúdio. Parcial o tanas, é obrigação de um serviço de notícias reportar as perspectivas disponíveis, não afunilar numa em péssimo jornalismo. Não somente, o facto de o indymedia e o esquerda.net não serem parciais não justifica a parcialidade da Lusa. Esta, juntamente com os jornais que se servem do seu trabalho, tem o dever de não apresentar ‘factos’ sem os confirmar; de relatar precisamente aquilo que se sabe, não aquilo que se julga ter acontecido.

Especialmente num caso destes, em que a polícia carrega sobre cidadãos em protesto.

Finalmente, uma bela duma reprimenda à CGTP que conseguiu, mais uma vez, enviar a polícia para cima daqueles que apresentavam uma manifestação alternativa. O que aconteceu no anti-NATO foi o que se viu e agora a história repete-se. “O povo unido…” o raio que vos parta.

One thought on “>A agência Lusa, os anarquistas e a CGTP

  1. >Lembrando que eu tenho muito respeito pela grande maioria das acções levadas a cabo pela CGTP, tendo-os apoiado sempre que pude. Neste aspecto, no entanto, é vergonhoso a maneira como se seguram os protestos num bloco partidário e se ignoram os princípios que levam as pessoas à rua. Enfim uma no cravo…

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