>Se a ignorância não é desculpa, a omissão/manipulação consciente dos factos não é desculpável.

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Num texto publicado ontem no portal esquerda.net, Francisco Louçã e Mariana Mortágua denunciam, de forma determinante, os supostos defensores da “solução argentina” para a crise portuguesa. Na minha modesta opinião, a referida prosa é bastante esclarecedora e até educativa, pois, em política e economia, é sempre aconselhável conhecer o passado para agir no presente. De facto, fiquei convencido que, com todos os paralelismos que se possam estabelecer entre as duas crises, a “solução argentina” não é a resposta adequada às vicissitudes que enfrentamos. O papel progressivo do texto dos bloquistas é precisamente o de desmistificar o teor da “solução argentina” assim como o governo que a implantou.

Por outro lado, uma dúvida emergiu na minha consciência: mas, afinal, a quem é que o texto é dirigido? Valha a verdade, nunca falei com ninguém proveniente do campo político da esquerda que defendesse uma “solução argentina” para Portugal. Temo, além do mais, que a maioria dos esquerdistas não conheça, de forma tão aprofundada, os contornos reais da crise argentina, a da resposta política que ela impulsionou. Assim, de quem são os erros que Louçã e Mortágua apontam?

Existe a forte possibilidade que sejam os defensores da cessação/suspensão do pagamento da dívida externa portuguesa os visados pela prosaica invectiva dos bloquistas. Caso isto se confirme, estamos, desde logo, perante uma manipulação dos factos: o estabelecimento erróneo de um silogismo entre defensores da cessação do pagamento da dívida externa e os defensores da “solução argentina”. Como já referi acima, são escolhas políticas diferentes, e nem eu conheço nenhum sector político da esquerda que defenda a “argentinização” da crise portuguesa ou europeia. São casos diferentes, com especificidades justamente apontadas por Louçã e Mortágua.

Depois, e, repito, caso se confirme que o texto é dirigido aos defensores da cessação do pagamento da dívida externa, os seus autores incorrem numa dupla manipulação retórica, desta vez, através da omissão: penso que nenhum sector político da esquerda apresentou a cessação do pagamento da dívida externa como uma medida isolada, muito menos como uma panaceia para todos os males. Parece que Louçã e Mortágua se esqueceram disto, de forma bastante conveniente para o seu discurso. Na verdade, a cessação do pagamento da dívida externa teria de ser, forçosamente, uma pequena parte de uma total alteração do paradigma político actual. Uma inversão de 180º na resposta a dar à crise da agiotagem. Qualquer pessoa sabe que a cessação do pagamento da dívida externa por si só, sem qualquer outra medida complementar, seria o descalabro para as contas do estado e, consequentemente, para a vida real das pessoas.

A cessação do pagamento da dívida externa só faz sentido caso seja parte do todo, e não o todo per se. Terá, obrigatoriamente, que incorporar um pacote de medidas inerentes a uma política anti-capitalista. Primeiro que tudo, a resposta teria de ser concertada entre os países mais frágeis da UE, ou seja, os chamados PIGS teriam de “bater o pé”, no dizer da nossa Sofia Gomes. Depois, no caso de Portugal, teria de avançar com medidas como a nacionalização da banca, para o estado não ficar dependente dos usurários; a nacionalização dos sectores centrais da economia, para reforçar o investimento público e a queda do desemprego; o reforço da produção nacional, para impulsionar a exportação de mercadorias e equilibrar a balança comercial; a taxação das grandes fortunas e da bolsa de valores; o restabelecimento da soberania portuguesa no tocante à política monetária; uma reindustrialização efectiva do país; revogação das PPP’s lesivas para o estado; o fim dos offshores, e um longo etc.

Ou seja, caso se avançasse com a suspensão ou cessação do pagamento da dívida externa, teria que se garantir que o estado não ficaria dependente dos agiotas, como sucede neste momento, e tivesse outras fontes de financiamento, ou seja, ir buscar a riqueza onde ela está concentrada. Digamos que é uma política mais próxima “solução islandesa”, ressalve-se as especificidades, a qual o BE tanto saúda, mas não tem coragem de defender para o nosso país. Ignoro o porquê de aqueles “pormenores” serem omissos, mas, se a ignorância não é desculpa, a omissão/manipulação consciente dos factos não é desculpável.

2 thoughts on “>Se a ignorância não é desculpa, a omissão/manipulação consciente dos factos não é desculpável.

  1. >Ainda que falaste sobre o tal artigo. Li-o ontem e estava a pensar fazer algumas perguntas sobre a quem se dirigia e qual a solução para o problema. Concordo contigo em tudo, excepto na restauração da nossa soberania no que toca à política monetária. Para mim (e para já) faz sentido continuar no Euro. A não ser que te refiras a outra estrutura orgânica que nos permita ter uma verdadeira voz nestes assuntos dentro da zona euro.

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