>Um alerta da Finlândia

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A ascensão dos resultados eleitorais da extrema-direita finlandesa, cujo partido responde pelo pomposo nome de Perussuomalaiset (“Basicamente Finlandeses”, ou melhor, “Finlandeses Básicos”, que é como eu descreveria tal fauna), é um alerta para todos os europeus. Não auguro nada de bom dali. Não devido ao seu particular cepticismo em relação ao empréstimo a Portugal, que de benéfico também não tem nada, mas sobre as respostas políticas que esta crise tem vindo a originar nos diversos países, neste caso, a Finlândia.

A Finlândia é um dos bastiões da social-democracia, um país no qual eu encontro um modelo no que toca ao acolhimento institucional dos imigrantes, à tolerância para com as minorias e com índices altos de igualdade social. Um país que me recebeu e me surpreendeu com o seu civismo. Um país onde as pessoas pagam impostos elevados, mas têm serviços sociais dignos para toda a população. A título de exemplo: todos os estudantes finlandeses têm bolsas, assim como todos os desempregados têm um subsídio de desemprego. Obviamente que, no entendimento do típico e mesquinho português, tal acessibilidade a direitos mínimos é uma impossibilidade utópica, devido aos mandriões que por aí grassam. Seja como for, nunca é suficiente realçar que “todos” podem auferir estas garantias de dignidade.

Com a crise, ou ainda um pouco antes, a usual filosofia de miséria atacou a Finlândia. Verificou-se, então, o ocaso da social-democracia, o arrivismo dos tecnocratas e economicistas gananciosos, aqueles que ditam o “fim das ideologias” apenas para aplicar as suas ideias, devidamente mascaradas, de uma sociedade mais injusta e marcada pelo “salve-se quem puder” permanente. Tudo em nome do crescimento e da competitividade, entenda-se. Enfim, uma trupe em tudo similar àquela que povoa os centros de decisão deste nosso luso cantinho.

Foi a desilusão com esta realpolitik que levou ao crescimento dos Perussuomalaiset. Digo isto antes que venham os profetas da desgraça apontar o dedo ao caso finlandês como prova que, afinal, não é possível um paradigma económico-político um bocadinho melhor que o nosso. A razão para o crescimento deste partido radica não tanto na sua ideologia, mas no seu discurso, pontuado com uma marca muito própria, deixando de lado o “politicamente correcto”, arrancando a política do campo da tecnocracia e do economicismo e apelando à irracionalidade do pensamento. Como se sabe, em contextos de crise e descrença geral no modus operandi político, tal arrazoado sempre obtém os seus resultados.

Como já tinha dito em outras conversas, este resultado não representa o povo finlandês que eu conheci. Um povo aberto a pessoas de outros países, culturas e religiões. Um povo que não concebe a desigualdade social como um fenómeno inevitável, não entende o desamparo dos mais vulneráveis como algo fatal, a xenofobia como um sentimento entendível nem categoriza minorias sexuais como uns doentes crónicos. Nestas questões, os finlandeses continuam a estar léguas à frente dos nossos portugueses. Não sinto o mínimo orgulho ao afirmar isto, mas é a mais pura das verdades. Esperemos que as coisas não descambem por lá também..

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