>Sobre a proibição da burqa na França

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Este pretenso civismo faz-me impressão. O Governo francês já demonstrou que o velho chavão Liberté, Égalité, Fraternité há muito que foi arrumado na arrecadação e neste momento não passa de uma ternurenta recordação dos tempos idos, quando países se fundavam em ideais humanistas.

Agora, contornam habilidosamente um pressuposto constitucional, o da livre expressão religiosa, para impor uma restrição profundamente anti-islâmica: a proibição da burqa. Dissequemos esta bela ideia:

a) A máscara cívica:

– por um lado, advogando os direitos das mulheres como justificação primeira. Enquanto que sim, podemos dizer que há repressão feminina em sectores conservadores do islamismo (assim como em todo o conservadorismo abrâamico), este argumento é falso pois apenas remete para a reclusão as mulheres pretensamente vítimas dessa violência (digo pretensamente pois só em estudo de caso se pode verdadeiramente passar à acusação grave), escondendo o problema e impedindo a acção dos agentes mediadores que poderiam trabalhar na inclusão da diversidade; ao mesmo tempo que, na linha do que disse antes, remete para a burqa toda a simbologia da repressão de mulheres, expiando esse demónio (ignorando problemas de representatividade maior do que duas centenas de pessoas) e também, em consequência, reprimindo aquilo que, não esqueçamos, é expressividade cultural operando, assim, uma leve forma de repressão feminina!

– por outro lado, a laicidade do Estado como justificação. Vejamos uma coisa: um Estado laico não é, forçosamente, anti-religioso. Aliás, são duas dimensões que não se cruzam – daí a própria constituição não permitir ao Estado arbitrar sobre a expressão religiosa de algum culto. Discutirei mais abaixo a questão institucional.

b) O modelo vigilante: argumenta-se que as pessoas que apareçam de cara tapada serão identificadas (sendo desta forma que dão a volta à proibição constitucional que indirectamente violam). Discorrer pernicioso! O que aconteceu ao “inocente até prova em contrário”? E se eu usar barba, tenho de a cortar? Sou identificado na rua, independentemente da legalidade ou ilegalidade dos meus actos? O que aconteceu à liberdade de circulação?

Ah, respondem, mas afirmam que “a lei não se aplica dentro dos carros pessoais ( já houve uma francesa interpelada por estar a conduzir de véu) e que continua a ser permitido cobrir a cara com capacetes, ligaduras, máscaras de soldador, máscaras de esgrima e disfarces de Carnaval.” (cf artigo) Ou seja, não há problema! É muito menos suspeito andar na rua de máscara de esgrima! Quem não confiará num tipo desses? Ou um soldador, a passear pelo banco, a medir o cofre. Tenham juízo, não me emprenhem pelos ouvidos.

c) O descaramento racista, que outro nome não tem, desta lei. Pois, como se observa no artigo do Público, «“é estúpido fazer uma lei para 150 pessoas”, como explicou à Associated Press, num texto publicado pelo Nouvel Observateur. Calcula-se em menos de 200 as mulheres que usam burqa em França,». Sim, é estúpido. É, também, medo do islâmico, porque de outra forma não se compreende uma proibição a nível nacional porque 200 pessoas andam de cara tapada.

Levantam-se muitas questões pertinentes por este assunto. Quero falar de uma delas aqui, que tem a ver com o funcionamento institucional do Estado e a proibição de elementos religiosos em espaços de uso institucional público (repartições, escolas, hospitais).

Eu sou, à partida, a favor da ideia que o aparelho de um Estado laico deve ser despido desta simbologia. Por uma lógica de coerência, também por uma questão prática: não podemos sarapintar as paredes com toda a sorte de cruzes e estrelas e planetas e animais que agrade a todos. No entanto, aquilo que diz respeito ao espaço individual, privado, não deve estar sob este escrutínio estatal: assim sendo, não me incomoda, por exemplo, que um aluno vá para as aulas de crucifixo, ou de taqiyah, em princípio.

Há, no entanto e necessariamente, normas de conduta obrigatórias ao bom funcionamento institucional. A instituição moderna é assim: obriga a separações e a regulamentações eficazes. Daí que me pareça, abstractamente, fazer sentido que um professor não queira uma aluna de burqa na aula, porque isso o pode impedir a necessária identificação. Por exemplo.

No entanto, meus amigos, estas são questões que surgem localmente. Como qualquer professor, ou médico, pode dizer, trabalhar em contextos locais obriga a adaptações. Obriga, também, a que a instituição aja para além da sua fisicalidade, em contacto directo com as populações locais, em contexto. Se existe algum impedimento, por exemplo e neste caso, de uma prática religiosa poder entrar em conflito com algum parâmetro de funcionamento normal do Estado, essa questão tem que ser negociada, localmente, entre os agentes da instituição e os visados. No caso da burqa, teria que haver um diálogo entre a escola e os pais, ou agentes de poder da comunidade islâmica local (a haver), de forma a encontrar uma situação óptima que não lese ambas as partes. Como de resto se faz, todos os dias, em todo o lado em que haja gente sensata.

O que nunca pode haver é leis estúpidas, arbitrárias e controleiras. As coisas resolvem-se com diplomacia e entendimento.

17 thoughts on “>Sobre a proibição da burqa na França

  1. >E quanto aos muçulmanos que se recusam a aceitar a nossa cultura, estando no nosso país? Ou como em Inglaterra, que retiraram o Holocausto do programa nacional de História pois "feria as susceptibilidades do povo muçulmano"? O problema não é nós não aceitarmos a cultura deles, o problema é eles próprios não saberem viver em sociedade conosco. Lido diáriamente com muçulmanos, há gente boa e gente má como em todo o lado, mas assustam-me as lavagens cerebrais que os jovens levam na mesquita que os levam a dizer que "nós é que somos bons" e "o vosso deus não presta". Isto é que é igualdade? Não me lixem…

  2. >Pois, já me falaram muito desses terríveis muçulmanos. A verdade é que nunca conheci nenhum deles. O seu comentário só desmascara uma lavagem muito mais potente que a das mesquitas: a lavagem dos media ocidentais, que tornaram a islamofobia uma moda. Engraçado que toda agora gente lida com muçulmanos, toda a gente acha que os há "bons" e "maus", mas depois arremessam logo que "não aceitam a nossa cultura". É como aqueles racistas que nos dizem "Epá, eu até tenho um amigo preto, mas a verdade é que a maioria deles são uns filhos da p****". Já agora, diga-me uma coisa: em que é que a proibição da burqa ajuda à integração da população muçulmana? Por acaso, deu-se ao trabalho de ler o texto completo e analisar friamente a questão, ou viu a palavra "muçulmano" e comentou em piloto automático?Parabéns, Maciel, já estava a ver que, passados alguns minutos da tua posta, e não vinha aqui ninguém alertar para a falta de civilidade do povo muçulmano.

  3. >Olá Anónimo. Parece-me inevitável que haja conflito, assim como haverá em todo o lado. Haverá conflito entre islâmicos e não islâmicos, entre brancos e pretos, entre vizinhos. A questão, aqui, parece-me ser esta.A existência de conflito, natural a partir do momento em que há ideias contrastantes, não tem necessariamente de partir do "estranho". Aliás, a mais pequena e comunitária aldeia tem ódios de morte entre famílias. Parece-me, por isso, importante pensar nas formas de mediar esse conflito e de o resolver, sendo à partida uma solução mais eficaz do que atacar populações submetendo-as à criminalidade.Como acredito que violência gera violência, parece-me que a mediação e adaptação seja o melhor caminho. Como o Anónimo disse e muito bem, há muçulmanos bons e maus, na medida em que há pessoas boas e pessoas más. Não faz sentido julgar o justo pelo pecador, pelo que o trabalho do Estado deverá ser inclusivo e trabalhar com essas comunidades no sentido de haver uma livre socialidade de todos.Agora, não percebo em que medida o seu comentário se relaciona com o que escrevi…

  4. >Felizmente vivemos numa sociedade ocidental que evoluiu ou que pretende evoluir num sentido de aproximar a igualdade entre géneros e pessoas. Simplesmente não consigo aceitar que existam na nossa sociedade elementos repressivos como o uso da burqa. Porque o que com aqui se lida não é necessariamente com a liberdade de expressão individual, mas sim com a liberdade de boicotar a expressão individual. Basta ler algumas passagens do Corão para perceber isto. A mulher no mundo islâmico é um ser submisso e a burqa o seu símbolo de repressão.Por outro motivo acho também piada que evoquem a liberdade individual, quando na verdade a própria simbologia da burqa serve para criar uma identidade colectiva suprimindo qualquer traço que distinga. Simplesmente não me sinto confortável em retroceder nos valores e direitos que foram adquiridos e construidos ao longo dos séculos, muitas vezes a partir de muito sacrifício. Sou igualmente defensor da laicidade do estado de modo que acho que publicamente qualquer simbologia religiosa devia ser suprimida. Acho uma vergonha por exemplo as situações que se passam em Londres ou em outros locais do mundo onde literalmente o comercio e as vidas das pessoas têm de parar pois milhares de muçulmanos decidem estender os seus tapetes no asfalto e rezar para meca.É esta a laicidade que defendemos?E quanto a esse conceito da 'Islamofobia' secalhar há muita islamofobia não justificada, é verdade, mas por outro lado em países ocidentais não acho coerente que pessoas sejam punidas por criticarem o islão ou porem em dúvida as suas crenças. Todas as religiões devem estar abertas a crítica, sinceramente não entendo o TABU ou respeito que se tem de exercer perante as mesmas. Não se deve esquecer também que o islão tem uma agenda política muito forte. Não estamos a falar de uma religião propriamente pacífica e isto são factos.

  5. >Anónimo:É de louvar esse seu ímpeto, mas infelizmente há muitos "sectores represivos da sociedade",e não é com mais repressão que os vamos eliminar. A integração, o diálogo e o progresso são mais fortes do que todas as leis restritivas contra hábitos que consideramos obscurantistas.Vejo que conhece bem o Corão. Também conhece a Bíblia ou a Tora? Se este ou aquele livro religioso assume incorpora um programa político depende sempre do contexto histórico, e não da religião em si, ou dos seus praticantes. Estude a história de qualquer uma das religiões abraâmicas e chegará a essa conclusão. Nenhuma religião abrâamica "é pacífica" e isto é que são factos. A sua pacificidade depende sempre do contexto histórico e político. Não partilho desse seu alarmismode ver pessoas a rezar na rua, etc. Não são 200 pessoas de cara tapada que põem em cheque a laicidade do estado. Preocupa-me mais ver o Sócrates a inaugurar Igrejas no dia do centenário da República.Mas diga-me lá, em que é que a proibição da burqa vai ajudar as mulheres oprimidas muçulmanas, além de as obrigar à reclusão ou a uma conta enorme de multas?

  6. >Dois pontos fortes, vou decompor:-Considerar o uso da burqa um exercício de dominação pode ser em muitos contextos até justificado. Quem sabe, talvez até de todo. No entanto, não pode competir ao Estado essa forma de agência moral, sob o risco de esse tipo de postura disciplinar interferir directamente na liberdade expressiva individual. Quer queiramos ou não, o usar a burqa, em si, não pode (ou não deveria) ser criminalizado porque a investida violenta que a criminalização traz apenas gera mais reacção e segrega essa expressividade, tornando a realidade do conservadorismo cada vez mais inacessível à acção dos mediadores culturais. Ora vejamos por exemplo:http://www.dn.pt/inicio/globo/interior.aspx?content_id=1827730&seccao=EuropaIsso não quer dizer que paremos de combater a desigualdade. Mas há formas de a combater, sendo que a criminalização só agrava essas disparidades. Não creio que impedir alguém de expressar a sua religiosidade seja qualquer caminho e, se eu defendo a laicidade do Estado (enquanto defender o Estado, pelo menos), sou completamente contra qualquer interferência legislativa na liberdade individual de crença e manifestação expressiva, seja religiosa ou não, contando que não interfira com outros. Vestir uma burqa não interfere com ninguém, é uma decisão, à partida, pessoal.Nesse sentido de "identidade colectiva" de que fala, eu colocaria muitas outras coisas. A praxe académica? O look skinhead? Porra, coisas tão simples como vestir um casaco de peles ofende a sensibilidade de muitos. Quando desenhamos a linha?Falando em praxe académica, as cidades do nosso país são interrompidos durante uma semana para um festival de bebedeira. Um desses dias chega mesmo a interromper o trânsito para que os bêbados possam passar. E isso é bom, embora eu não goste da praxe, é saudável que uma sociedade não seja maquinal ao ponto de não permitir a celebração disto ou daquilo quando esses eventos abarcam um numero significativo de pessoas.Mas, mais uma vez, isso diz respeito a casos pontuais e devem, como tal, ser negociados localmente e não em política de Estado. Se eu sou contra a praxe, sou também contra a proibição do uso do traje, pois uma questão é dinâmicas locais e individuais de de produção de cultura, outra é criminalizar essa expressividade.-Em segundo lugar, respondo à sua noção de "islão". Lembro que falamos de um número gigantesco de pessoas, pelo que falar de 'burka' (uma muito pequena minoria usa burqa, como se vê no artigo que postei) não é falar de islão. Remeter ao islão os actos violentos ou intransigentes de uns é tão estúpido como comparar o cristianismo contemplativo de Agostinho da Silva com a deriva ultra-conservadora e demente de Fred Phelps. Colocar tudo no mesmo saco, chama-se a isso preconceito.Relembro também que esse "Ocidente" que o Anónimo tão gosta de gabar foi, directa e indirectamente, responsável pela esmagadora maioria de guerras que se sucederam nas últimas duas ou três centenas de anos, pelo menos. Portanto, não há legitimidade para essa comparação.

  7. >Quanto à questão das sociedades islâmicas, penso que a repressão parte mais pela existência de regimes autoritários e ditatoriais (contra os quais assistimos recentemente sucessivas manifestações populares em diversos países) tratando-se mais de uma questão material de pessoas dominadas por reis sanguinários e de uma riqueza estapafúrdia. Levantam-se questões de direitos humanos fundamentais que, na minha opinião, devem ser resolvidos. Mas isso não acontecerá atacando-os, legitimizando o ódio contra o ocidente; muito menos acontecerá criminalizando aqueles que se mudaram para os nossos países, que se afastaram desses regimes tirânicos.

  8. >Tiago Silva, terei todo o gosto em lhe responder às suas questões no entanto gostaria que conduzisse as suas respostas com mais parcimónia pois se defende a expressão individual concerteza saberá ouvir opiniões dispares das suas.Eu reservo o meu anonimato pois é um direito que possuo logo não tenho de lhe dar qualquer justificação de o porquê que o faço. Por outro lado não convém confundir conceitos. Eu acredito que a Burqa é um símbolo de repressão individual, logo não acredito na sua permissão. Não podemos encarar a Burqa como mais um pedaço de tecido porque não o é. Não me interprete mal, eu não defendo absolutamente a supremacia de qualquer religião, pelo contrário. E Sim eu acho que o progresso muito se deve ao diálogo e apoio-o totalmente. Mas como vamos dialogar com alguém que não está disposto a fazê-lo? Alguém que quer impor as suas leis a outros? Acha isso correcto? Acha correcto também que os muçulmanos possam exercer por exemplo a Sharia Law?E Olhe, não são 200, encontra-se muito mal informado. São muitos mais como pode constatar : http://www.youtube.com/watch?v=j9vm4bv6zk4Um povo que diz que só se submete a Deus e a mais ninguém acho que é no mínimo perigoso. Acha que tal filosofia corrobora com o diálogo? Eu Não

  9. >Daniel. Não se trata de tiranos sanguinários, trata-se de seguir um livro religioso à regra. Felizmente na nossa sociedade ao longo dos séculos conseguimos contrariar a interpretação da Biblia à letra e separá-la do estado. O Corão é um livro político pois promove a expansão do Islão a partir da submissão de outras religiões. Quer por morte ou por pagamento de multa. A bíblia, o velho testamento e etc é mais pacífico no que toca a este assunto embora não o tenha sido aplicado com a mesma pacificidade na realidade. Acha mesmo que as pessoas que vêm formatadas desses países com os seus ideais e que por sua vez os transmitem na integra aos seus filhos alguma vez vão estar abertas ao diálogo? Na minha óptima claro que não, só se se integrarem na sociedade e adoptarem os valores vigentes no que toca à liberdade de expressão e numa educação mais vasta no que toca à mulher. E caro Tiago obviamente que o não uso da burqa irá permitir mais facilmente a integração da mulher numa sociedade. Acha que ela sentindo-se diferente de todas as mulheres que vê e sendo-lhe negado repetitivamente a que mostre a sua beleza é que se vai sentir integrada numa sociedade? Só se irá sentir integrada no gueto islâmico e isso na minha óptica só cria mais exclusão.

  10. >Para além de que quem conheça o Islão sabe que há várias maneiras de uma mulher demonstrar o seu respeito por Deus. Uma delas, por exemplo, é usar um lenço na cabeça. Esta medida por exemplo não põe em causa a integridade da mulher e permite-a expressar livremente a sua religião. Mas quando falamos da Burqa já estamos a falar de extremismos e isso , peço desculpa, não posso aceitar

  11. >Eu disse 200 a usar a burqa, que são, segundo os números avançados no artigo que citei no post. Mais uma vez, repito, sempre tendo em conta que não é um assunto fácil: criminalizar a burqa é um acto repressivo que ataca directa e indiscriminadamente um determinado grupo de pessoas. Claro que, por exemplo, se de repente um grupo de malucos decide fazer um apedrejamento público devemos intervir. Mas não porque são muçulmanos, ou qualquer outra religião: porque aquilo que estão a fazer é barbárico. Falamos de patamares diferentes. As leis devem apontar para coisas objectivas e que não ataquem grupos pela mera suposição de que esses grupos podem vir a ser perigosos. Se me disser que aqueles muçulmanos podiam ser dispersados pela polícia porque interromperam ilegalmente a rua… podiam! Não por serem muçulmanos, mas sim porque interromperam ilegalmente a rua! Cada coisa no seu lugar.E não, não acho que imporemos a lei Sharia só por sermos tolerantes à presença de muçulmanos. Isso já é um alarmismo que não faz sentido e é uma ideia que não me viu a mim ou qualquer outro neste blog a defender. Esse vídeo que sugeriu é demasiado parcial e igualmente alarmista. Vídeos como esse posso eu fazer nas ruas de qualquer cidade, se sair em tempos-chave. Mais uma vez, remeto ao comportamento das praxes académicas, até porque vi eu muitas vezes cidadãos a ser ameaçados e brutalizados por estudantes alcoolizados.Só para mostrar como esse argumento se pode fazer um pouco com tudo.

  12. >E a própria Burqa não é um símbolo de repressão? A minha questão é : será repressivo condenar e proibir a repressão? O meu problema não é contra a religião do Islão. Mas sim contra tudo aquilo que põe em causa a integridade física de alguém! Por outro lado o exemplo que deu do apedrejamento é tão relativo como a questão da Burqa. Os seus valores que adquiriu nesta sociedade dizem-lhe que apedrejar alguém no meio da rua é algo de bárbaro. No entanto para estas pessoas não o é, e é perfeitamente legítimo ou seja está a impor os seus valores a uma dada minoria. Isso não seria igualmente conotado de repressão?O que lhe dá o direito de o fazer nesse caso? Com a Burqa é exactamente o mesmo , mas não se trata de violência física mas sim de sofrimento psicológico que por vezes é muito mais duradouro.Por outro lado a questão da Sharia não é alarmismo, é também um facto como poderá constatar : http://www.timesonline.co.uk/tol/comment/faith/article4749183.eceQuanto a praxes académicas acho que é muito errada correlacionar. Eu ando na Universidade e nunca fui obrigado ou coagido a aceitar a praxe. E se tais estudantes bebados o fizeram então foi crime e algo que não está contemplado a nível de praxe. Por outro lado o traje não serve para reprimir ninguém. O acto de uniformizar advém exactamente da ideia de colmatar quaisquer diferenças sociais que existam entre os estudantes. Essa era a ideia original e que saiba da história da praxe também o saberá.

  13. >Voltamos ao alarmismo. O tribunal Sharia no link que passou é perfeitamente legal e não suplanta a lei. Não simplesmente isso, lê-se:"It has also emerged that tribunal courts have settled six cases of domestic violence between married couples, working in tandem with the police investigations."Comunidades auto-organizadas a colaborar com a polícia na resolução de conflitos internos? É este o seu povo violento? Colaborar com o sistema judicial, aliviando a pressão dos casos menores aos tribunais? Venham estes terroristas, digo eu, que são muito mais responsáveis e civis do que muitos que eu conheço que resolvem os seus problemas ao punho e à facada (eminentes ocidentais).E leiamos o que diz mais abaixo:"Jewish Beth Din courts operate under the same provision in the Arbitration Act and resolve civil cases, ranging from divorce to business disputes. They have existed in Britain for more than 100 years, and previously operated under a precursor to the act."Há 100 anos que há tribunais judeus a operar no mesmo princípio – e o Reino Unido não parece ter sofrido muito com isso, ou parece? Mais uma vez, voltamos à questão da adaptabilidade das instituições aos contextos. A lei Sharia não poderia sobrepor-se à lei do Estado – aliás, nada poderá. Quanto ao apedrejamento, não me responda com o argumento fraco do relativismo cultural, porque isso comigo não funciona. Obviamente que uma intervenção sobre um homicídio é uma agressão, mas é uma agressão autorizada dadas as circunstâncias. Num apedrejamento atenta-se à integridade física de outra pessoa, coisa que eu já disse que deve ser impedida. Em nada se compara com proibir alguém de usar burqa, isso é não é mais do que um atentado à liberdade individual. E se para o Anónimo a burqa é um símbolo de opressão bem, azar, que para mim também é mas eu não ando aí a exigir que criminalizem quem a usa.Já assumiu várias vezes que as mulheres são obrigadas a usar burqa. Não necessariamente. Mas se o forem, de acordo com a lei, essa obrigação deverá ser denunciada para que se possa agir nesse sentido. Não porque alguém se vestiu de uma forma da qual não gostamos, mas porque uma pessoa está a exercer de uma autoridade sobre outra que é criminosa.E sim, a meus olhos a praxe é uma versão muito suave de repressão. Mas sem querer desviar do tópico principal, acho piada ao que disse: "E se tais estudantes bebados o fizeram então foi crime e algo que não está contemplado a nível de praxe."Se o estivesse, então já seria questionável?

  14. >Gostava que tivesse lido o artigo até ao fim : Politicians and church leaders expressed concerns that this could mark the beginnings of a “parallel legal system” based on sharia for some British Muslims.Dominic Grieve, the shadow home secretary, said: “If it is true that these tribunals are passing binding decisions in the areas of family and criminal law, I would like to know which courts are enforcing them because I would consider such action unlawful. British law is absolute and must remain so.”Douglas Murray, the director of the Centre for Social Cohesion, said: “I think it’s appalling. I don’t think arbitration that is done by sharia should ever be endorsed or enforced by the British state.”There are concerns that women who agree to go to tribunal courts are getting worse deals because Islamic law favours men.Não sou a favor da criação de sistemas judiciais paralelos que além do mais promovem a desigualdade entre géneros.Quanto ao relativismo Cultural acho curioso que ache este argumento fraco quando na verdade é a pedra basilar de toda esta discussão. Você e muita gente só não aceita aquela violência que está perante os seus olhos. Aquela que está implicita deixa que passe. Acha mesmo que numa comunidade islâmica fechada com as suas próprias leis uma mulher pode dar-se simplesmente ao luxo de dizer 'que não'? Claro que não, é necessária uma leia que as proteja. Quanto à praxe nem lhe vou responder. Gostava que me dissesse se alguma vez já participou em alguma. A praxe é originalmente um sistema de inclusão académica e não de repressão. Quanto ao resto eu não gosto de especular sobre aquilo que não acontece.Com isto acabo a minha discussão sobre este assunto, felizmente a maioria dos Governos Europeus e da população dos mesmos têm esse ponto de vista, de outra forma existiria sem dúvida uma deplorável degradação da liberdade à integridade fisica de cada um.Sinceramente gostaria de o ver tentar a dialogar com um radical islâmico ou Cristão ou Judeu em que o único argumento seria 'só respondo a Deus' Ele está do meu lado

  15. >Vejo que o anónimo continua a usar uma burqa sobre a sua identidade. Não se preocupe, que, neste blog, nós respeitamos a sua liberdade individual, não aplicamos multas, perdoe-me a ironia.Primeiro que tudo, esta conversa segue uma tendência geral em todas as questões relacionadas com este tema: uma sobrevalorização notória da "questão islâmica". Pouco podemos fazer em relação a isso, pois todas as gerações, em diferentes contextos histórico-sociais, tendem a arranjar os seus "moinhos" para combater, muitas vezes face a problemas reais, como desequilíbrios sociais causados pelos fluxos migratórios. Ou melhor, por um deficiente enquadramento social desses fluxos. A segunda tendência geral é uma manifesta incapacidade de avaliar a questão de um ponto de vista social, político e histórico. Uma manifesta incapacidade de partir de uma análise da questão real, da implantação social da questão, ao invés de se manter a argumentação puramente no plano das ideias. Eu partilho das preocupações relativas à necessidade de uma sociedade laica, não simpatizo mais com o islamismo do que com cristianismo. O Daniel conhece-me muito bem, sabe as minhas posições relativamente à religião, e certamente corroborará a minha afirmação. Agora, eu defendo que se combata a religião de um ponto de vista materialista, partindo dos movimentos sociais. Para fazer isto, é necessário conhecer os movimentos, tentar compreendê-los e, acima de tudo, dialogar com eles. Ora, medidas restritivas, como a que está em discussão, é proceder totalmente ao inverso. É hostilizar, discriminar, querer "pôr o carro à frente dos bois". Por vezes, para combater o obscurantismo e a crendice religiosa é necessário dar um passo atrás, para depois avançar depois passos. Não tenho a mínima dúvida que as filhas destas 200 mulheres, educadas por um sistema público de ensino laico, não iriam usar burqas. Por outro lado, caso medidas como esta vão avante, é possível que as filhas destas 200 mulheres irão encarar a proibição da burqa como uma afronta à sua identidade social, e irão encontrar no seu uso um instrumento de afirmação da sua identidade. Eu não duvido que, no plano das ideias, dos princípios, a utilização de burqa é uma prática machista e opressora da mulher. No entanto, mais uma vez, desçamos ao "mundo real". Será que as 200 mulheres que o fazem na França encaram-no assim? As pessoas tendem a esquecer que a religião é um vector de identificação e coesão social dos grupos humanos e, muitas vezes, este tipo de medidas fortalece essa ideologia como factor de coesão, identidade social e orgulho. Desta forma, este género de medidas, ao invés de enfraquecer o obscurantismo, fortalece-o no seio de sectores sociais segregados. Eu não duvido que o não usar burqa permitisse uma integração mais eficiente de certos sectores (que são ultra-minoritários, relembro) da mulher muçulmana na sociedade civil laica. O que eu questiono é até que ponto a PROIBIÇÃO da utilização de burqa permite caminhar nesse sentido. O problemas religioso não se resolve com medidas restritivas. Por fim, e porque isto já vai longo, uma última declaração: vejo aqui muita preocupação e defender os direitos da mulher, o que é de louvar. No entanto, quando a Caecília Fonseca publicou aqui uma posta sobre as dificuldades da mulher camponesa, nem um comentário sobre o assunto. Aposto que se eu enfiar aqui uma posta sobre as desigualdades nos salários entre os dois géneros ou a dupla jornada de trabalho da mulher em Portugal, também não irá surgir nem uma palavra de apoio ou comentário. Mas, quando é para proibir 200 mulheres em França de expressar a sua religiosidade e identidade cultural (mesmo que numa forma bizarra aos olhos ocidentais) arre que vêm aí os paladinos da igualdade de género montados nos seus palafréns, investidos de preocupações sociais! Que se continue a combater muitos moinhos de vento por aí fora…

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