>Sócrates caiu. E agora?

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Pois é, o que era expectável confirmou-se. O PEC IV foi chumbado na AR e o primeiro-ministro não teve alternativa a não ser cumprir o que havia prometido, isto é, demitir-se.

Primeiro, a sua queda só peca por tardia, depois de meses de pressão nas ruas e no parlamento. Mais do que de festa ou alivio, a hora é de reflexão. Porque, ainda que seja uma vitória relativa, a queda de Sócrates tem um alcance bem limitado. Assim, somos obrigados a reflectir. E agora?

Um sector da esquerda já demonstrou receio pela derrota de Sócrates, argumentando que esta apenas se iria materializar na inevitável subida da direita para o poder. Lógica perigosa, pois rapidamente se pode cair na retórica da “suspensão da democracia”, proposta por Manuela Ferreira Leite. Por outro lado, ainda que não devamos recear o voto popular, temos de ponderar sempre acerca desta questão, pois o cenário de um governo de direita, englobando o PSD, com ou sem o CDS, ou inclusive o PS, é sempre uma hipótese verosímil.

No entanto, não é obviando à derrota do governo PS que evitamos este triste cenário. Para não termos mais um governo de direita, que aplique as mesmas medidas do PS, ou ainda piores, terá que haver unidade à esquerda. Claro como a água, ou assim parece…

Agora, aqui é que as coisas se tornam mais espinhosas. Em primeiro lugar, BE e PCP teriam de se entender. Estes partidos votam juntos em grande parte das questões votadas na AR, por isso, que deixem as diferenças estratégicas na gaveta e entendam-se ao nível táctico. Este seria o primeiro passo, um entendimento eleitoral dos dois maiores partidos da esquerda portuguesa.

A meu ver, a proposta política a apresentar ao país não deve ficar por aqui. Não proponho como palavra de ordem uma mera união eleitoral do BE e PCP, já que também eles têm culpa no cartório, no que toca ao actual descrédito de uma grande fatia da população na política nacional.

A resposta política que o país precisa é a de uma confluência unitária à esquerda, protagonizada tanto pela esquerda parlamentar como pelo sector sindical, pelos partidos de esquerda sem assento parlamentar, pelos grupos organizados com preocupações sociais e pelos cidadãos de esquerda sem filiação partidária. Paralelamente a esta confluência eleitoral, deve-se entender uma coisa de uma vez por todas, aparentemente difícil de apreender para muitas esquerdas: o modus operandi político tem de se alterar. Por exemplo, o protesto de 12 de Março englobou uma enorme massa de pessoas que estavam, e estão, genuinamente desiludidas com o modo de fazer política e querem algo de novo. Assim, jogos de bastidores, tentativas de instrumentalização dos movimentos, micro-guerrilhas políticas entre grupúsculos de esquerda, trotskistas ou maoistas, sobre diferendos ocorridos há 50 anos, têm de ficar à porta. O discurso tem de ser completamente novo. Tem de se apelar aos descontentes, mostrar que a “classe política” somos nós. Assim, a palavra de ordem não deve ser a “união BE-PCP”. Deve ser, isso sim, união de TODA A ESQUERDA que quer uma mudança efectiva de políticas.

A esquerda não acaba no BE e no PCP. O protesto da geração à rasca mostrou-nos precisamente isso: existe todo um sector da população, inclusive da classe trabalhadora mais sobre-explorada, que se inclina para a esquerda e está farta do modo de fazer política em Portugal. Está saturada da política baixa e dos tiques politiqueiros. Quer se goste, quer não, tanto o BE como o PCP também são alvos deste descontentamento. São bem vindos a qualquer táctica unitária, é óbvio, mas o paradigma metodológico político/organizativo teria de se adaptar a uma postura de verdadeira ruptura com a situação.

Será assim tão difícil promover uma união alargada da esquerda, partidária e não-partidária, com base num programa político mínimo?

Não estamos de acordo relativamente à revogação do que tem sido as políticas de direita, desde há anos?

Não queremos estabilidade no trabalho, através de contratos permanentes para postos de trabalho permanentes?

Não queremos o fim dos falsos recibos verdes e a criminalização do seu uso ilícito?

Não queremos o direito a trabalhar 35h semanais, por exemplo, além de usufruir de férias e baixa remunerada de gravidez e de doença?

Não queremos uma saúde e uma educação realmente públicas, gratuitas e universais?

Não queremos o fim da agiotagem e da subserviência aos mercados, através da nacionalização da banca?

Não queremos o fim da cartelização dos preços dos combustíveis e a renacionalização dos sector energético da economia?

Não estamos de acordo no que toca aos cortes nos vencimentos dos altos cargos burocráticos do estado e das empresas públicas, por exemplo, através de um rendimento máximo aceitável?

Não seria exequível estabelecer também um rendimento máximo aceitável para o sector privado, para atenuar a sobre-exploração de quem trabalha?

Não queremos uma taxação pesada para as empresas que mais lucros auferem ,além de um imposto sobre as grandes fortunas?

Não estaremos em consonância se exigirmos a taxação do mercado bolsista e o fim do offshore da Madeira?

Não quereremos o fim do sigilo bancário, para erradicar a evasão fiscal?

Não queremos cessação do pagamento da dívida externa?

Não queremos o cancelamento das intervenções militares portuguesas no estrangeiro e o direccionamento das excessivas verbas das forças armadas para outros sectores da estrutura estatal?

Não queremos uma estrutura pública de assistência social, tanto para as nossas crianças como para os idosos?

Não seria viável uma estatização dos sectores centrais da economia, dos quais a nossa vida tanto depende, logo, devendo ser controlados por todos nós?

Então, unamo-nos! Que já poucos direitos temos para perder…

P.S: Parece que já há uma petição que caminha no sentido aqui proposto.

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