>12 de Março: gerações enrascadas exigem um futuro digno!

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As expectativas não foram frustradas. No passado sábado, dia 12 de Março de 2011, iniciou-se um movimento reivindicativo de novo tipo. A Geração à Rasca apenas se espreguiçou, mas abalou este país. Só em Lisboa, mais de 200.000 reuniram-se em protesto contra uma situação insustentável. No Porto, estiveram cerca de 80.000. No resto do país, houve protestos em Braga, Leiria, Coimbra, Funchal, Ponta Delgada, Faro, Viseu, Castelo Branco e Elvas. No total, mobilizaram-se cerca de 300.000 pessoas em todo o país. Uma vitória retumbante!

Agora, saídos dos ecrãs dos computadores, quem é esta Geração à Rasca? Primeiro que tudo, não é uma “geração”, no sentido estrito da palavra. Eles são jovens, outros mais velhos e até idosos. São trabalhadores precários, bolseiros de investigação, estudantes, operários, professores, funcionários públicos, pequenos empresários, desempregados, reformados e um longo etc. São uma fatia significativa da população que está farta da sua situação, mas que até agora não tinha encontrado uma forma de contestar. A retórica mobilizadora estava mais direccionada para os jovens “à rasca”, isto é, a juventude precária, estudante, desempregada e sem perspectivas de futuro digno. No entanto, eles conseguiram arrastar consigo outros sectores da sociedade e isso tem de ser relevado como um factor muito positivo.

Este protesto reuniu um sector da classe trabalhadora que nunca foi enquadrado no movimento sindical tradicional. Já num texto anterior, aqui publicado, referimos essa particularidade. A situação miserável deste sector obrigou-o a encontrar formas de organização e mobilização alternativas, que lhes permitisse lutar e alertar a sociedade para a sua condição. Escolheram o método adequado, o da luta nas ruas, conseguindo chamar sob a sua direcção, debaixo das suas bandeiras, outros sectores da classe laboral e inclusive da pequena burguesia, cuja radicalização se revela inquestionavelmente necessária para o derrube de um capitalismo financeiro monopolista cada vez mais destruidor.

Não obstante a confusão ideológica reinante e as tentativas (falhadas) de instrumentalização do protesto por parte de certos grupúsculos de gorilas acéfalos da extrema-direita nacionalista (cerca de 20 fascistas em 300.000 pessoas, números que demonstram bem a sua implantação real), o protesto foi um sucesso. Verificou-se, é certo, um claro preconceito anti-partidário, factor que também já foi enunciado num texto por mim publicado, fenómeno que é perfeitamente compreensível, face à falta de uma alternativa partidária, num regime cada vez mais decrépito. Segundo esta lógica, todos os partidos existentes acabam por ser conotados com a situação política actual, i.e., a decadência do regime nascido do golpe de 25 de Novembro de 1975. Mesmo aquelas organizações partidárias que pautam a sua intervenção parlamentar por uma denúncia dos fenómenos da precariedade, do desemprego e todos os problemas específicos de uma juventude sem perspectivas de futuro. No entanto, as confusões e contradições ideológicas resolvem-se e clarificam-se no “lume da contenda”, quando a correlação de forças for outra e quando o movimento se aperceber que só com a construção de alternativas políticas extra-sistémicas é que alcançamos a transformação profunda de uma economia decadente, que nos sufoca todos os dias, e de um regime político cada vez menos democrático, que se constitui como um autêntico feudo dos partidos do centrão e seus boys. Essas alternativas partidárias, revolucionárias e extra-sistémicas, ainda não existem, é verdade. Esperemos que se construam e que ganhem o apoio da geração enrascada.

No entanto, como já dissemos, clarificações ideológicas virão a seu tempo. Por ora, o central é garantir a continuidade deste movimento espontâneo, de forma a prosseguir a mobilização reivindicativa e alcançar os direitos dos quais nos declaramos merecedores. O 12 de Março não é o culminar de uma acção de protesto isolada e finita. Deve-se prosseguir o combate, reunir os núcleos de pessoas que organizaram os protestos em cada cidade, mantê-los em contacto, organizar plenários abertos a toda a gente, de forma a partilhar experiências, ideias e, acima de tudo, propor novas formas de acções reivindicativas. Impulsionar um crescimento do movimento, ao nível quantitativo, além de enquadrá-lo organizativamente, de forma informal, democrática e espontânea. Só assim conseguiremos assustar aqueles que nos sufocam e aqueloutros que nos governam. Só assim conquistaremos os direitos que as gerações que nos precederam arrancaram a ferros ao regime salazarista, em 1974, com muito sangue, suor e lágrimas. Porque somos muitos, muitos mil, a lutar por outro Abril!

P.S: Conquanto exista desconfiança por parte de muitos jovens “à rasca” relativamente às organizações sindicais tradicionais, é importante realçar que o nosso inimigo é o mesmo. O governo que fecha os olhos ao flagelo dos recibos verdes é o mesmo que ataca sistematicamente os direitos garantidos pela contratação colectiva. Bem sei que o movimento sindical tem sérios problemas de falta de democracia e direcções burocráticas que se perpetuam nos órgãos directivos há décadas. Vamos, no entanto, tentar unificar as lutas. Vamos dar uma oportunidade aos sindicalistas combativos que tentam transformar os sindicatos por dentro, organizativa e politicamente, em algo novo, num verdadeiro sindicalismo irreverente e de combate. Apoiando estes sectores, talvez o movimento sindical ganhe outros contornos, mais democráticos e adaptados ao contexto actual, englobando, desta forma, os precários, bolseiros e estagiários não só no discurso oficial, mas na organização e nas lutas. Por isso, TODOS OS ENRASCADOS À MANIFESTAÇÃO NACIONAL DA CGTP, DIA 19 DE MARÇO!

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