>Por que é que vou participar no protesto da “geração à rasca”?

>Porque vou:
Comecei a pensar no meu futuro profissional aos doze anos: decidi que queria ser advogada ou juíza. Mantive-me fiel a essa decisão motivada pela observação do ambiente que me rodeava, pensando, na ingenuidade própria da idade, que seria uma pessoa/factor de mais justiça para os que me rodeavam, que os poderia proteger de injustiças.

Entrei para a Faculdade de Direito à primeira tentativa, aos meus 18 anos e com uma média de 17 valores.

Questionei-me, variadíssimas vezes, durante o primeiro ano de faculdade, se seria aquela filosofia de vida que defendia. Descobri que não era, no entanto continuei o meu percurso académico acreditando que nós, após a formação básica, é que podemos transformar a mentalidade vigente, transformar, fazer evoluir, o direito vigente. Tendo consciência plena que o sistema educativo, em particular o ensino superior, não cultivava o pensamento crítico ou incentivava a qualquer tipo de contribuição crítica por parte do aluno.

Ao quarto ano de faculdade (num curso que à partida seria de cinco anos) informam-nos que não iríamos frequentar o quinto ano. Aqui começámos a sentir na pele o que significavam expectativas completamente goradas (havendo uma figura legal que pretende evitar este tipo de situações, foi aí que também descobrimos que a letra da lei é completamente diferente da realidade).

Tivemos a opção de nos inscrever na Ordem dos Advogados, um ano antes do que estávamos à espera, e um “favor especial” de nos podermos inscrever no “novo” Mestrado, sem limite de vagas para cada área especializada e com uma propina “simpática” (€ 1.500). Houve quem optasse pelas duas vias. Eu esperei.

Inscrevi-me em duas áreas de especialização, tentando ter uma formação o mais abrangente possível. Completei a componente lectiva, passei à fase de elaboração de dissertação (oficialmente seria um ano e seis meses, durou dois anos). Acabei o Mestrado em Coimbra com uma média de 16 valores. “O mundo estava à minha frente”.


Durante seis meses procurei, procurei. Não queria ser advogada. Porquê? Teria que realizar trabalho escravo, durante três anos. Não tinha hipótese, nem queria, de ser sustentada pela minha família até aos meus 30 anos.

Todas as entrevistas a que fui não tive sucesso. Preferiam sempre alguém com estágio realizado (o tal de três anos), alguém com “experiência”.

Resolvi concorrer para uma vaga de advogada estagiária em que se prometia o pagamento de um subsídio alimentar. Entrei.

No entanto, como me encontrava na primeira fase do estágio, não me pagavam nada, zero. Deixei-me estar porque tinha que ganhar experiência e o estágio é obrigatório. Geria o escritório e realizava todo o tipo de peças processuais com muito pouca ou nenhuma orientação. Essas peças não iam assinadas por mim, iam assinadas em nome do meu Patrono.
Para todos os efeitos, durante o ano que trabalhei nesse escritório, o meu trabalho não existe. Trabalhei arduamente e esse trabalho foi-me completamente alienado.

A situação tornou-se incomportável. Trabalhava mais do que qualquer pessoa, realizava todos os actos, dava formação a jovens advogadas que tinham direito a salário e a gabinete… Não aguentava mais.

Um dilema. A questão da identidade profissional e o facto de adorar o trabalho em si, a dinâmica de ser advogado. Sem condições materiais para tal, não poderia concretizar o meu sonho de chegar a Advogada (oficialmente).

Resolvi mudar de planos, e mudei de área.

Após algumas entrevistas, e não ter conseguido encontrar nada digno na minha área, resolvi aceitar a realização de um outro estágio fora da minha área.

No momento, sou uma estagiária dupla, ainda inscrita na Ordem dos Advogados, sempre com esperança de conciliar a situação profissional actual com a minha área de formação. Porque não se vive do ar, não se vive de sonhos. Estou muito longe de todas as pessoas que amo. Penso tudo a prazo porque não sei o que vai acontecer. Evito ter sonhos, expectativas, porque sei que não os vou conseguir realizar num prazo razoável (e estou a ser optimista).

Resumindo: vou participar no protesto da “geração à rasca” porque sou mais uma no meio de milhares de pessoas que precisam de gritar e dizer BASTA! Dizer que quero tomar o futuro nas minhas mãos. Não pretendo vitimização, pretendo, uma vez mais, lutar pelo mínimo a que tenho direito enquanto trabalhadora esforçada e que luta pelo mérito.

Luto a dizer não a este estado de coisas, luto também por todos os meus colegas que se encontram na mesma situação, que são milhares. Todos juntos conseguiremos.

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