>Semente de Futuro

>Semente de Futuro, Argumentos científicos contra os transgénicos

Parafraseando os termos de quem os conhece melhor que eu:

“O tema da Clonagem e Engenharia Genética é importante tanto por seu valor biológico intrínseco, como pela atual polêmica sobre manipulação genética e patenteamento de seres vivos. Os métodos de melhoramento tradicionais usando sementes, reprodutores, matrizes e clones sempre constituíram uma forma de manipulação genética e a transferência natural de material genético por via microbiana é um fenômeno que ocorre desde as formas mais elementares de vida. Todavia, nesses casos os processos são evolutivamente limitados e adaptativamente direcionados pela seleção natural, ao contrário dos métodos imediatistas e critérios seletivos artificiais e comerciais da Engenharia Genética, como será discutido em detalhe a seguir.


É muito importante distinguir a transgenia de ocorrência natural, dos transgênicos artificiais ou comerciais. A mutação e a transferência naturais de material genético são parte do processo evolutivo que no contexto da Natureza permitem a interação simbiótica constante e a seleção natural. Mutações que podem ser induzidas por fenômenos naturais e transferências de material genético entre ou por micróbios e vírus, ocorrem continuamente desde o princípio da evolução biológica. Lynn Margulis qualifica a transgenia de ‘o primeiro sexo do mundo’, pois foi a primeira forma de troca de material genético que ocorreu e ainda ocorre entre as bactérias, que de outra forma se multiplicam por divisões sem intercâmbios. E cada vez que micróbios ou vírus interagem entre si ou com outros organismos (em simbioses ou infecções), ocorre uma troca de genes que alimenta o processo evolutivo (Margulis e Sagan, 2002). Este fato é fundamental para a correta interpretação do significado das chamadas “pragas e doenças”.

A Engenharia Genética ou Biologia Molecular se auto-atribuíram e apropriaram do termo Biotecnologia para usar um nome atraente que disfarça sua profunda artificialidade tecnocrática. Os Métodos Orgânicos ou Biológicos constituem Biotecnologias num sentido muito mais amplo, justo e preciso no que se refere à vida e natureza. A indução de mutações e a transgenia artificial são proibidas na Agricultura Orgânica em geral, porque não servem á evolução adaptativa, nem se sujeitam à seleção natural, mas sim obedecem a critérios e objetivos humanos e sobretudo econômicos, ligados a patentes e à concentração de poder.

Um exemplo clássico é a incorporação artificial de genes para resistência a herbicidas, que leva a uma maior exposição do solo a fatores de erosão, poluição de alimentos e do ambiente, pelo simples objetivo de controlar os mercados de sementes e agroquímicos, explorando o comodismo de empresários agrícolas que só se preocupam em minimizar custos operacionais.

Outro aspecto negativo da transgenia artificial é o de que, selecionando rapidamente células transformadas apenas para um (ou muito poucos) caracteres de interesse específico – e.g.; resistência a um herbicida ou bloqueio do processo de maturação, como no caso do “tomate longa-vida” – não se considera nem se pode prever adequadamente o impacto negativo por meio de correlações de expressão gênica (e.g.; genes polímeros, modificadores e poligenes; Vencovsky, 1969) em outros caracteres como:
  • Perda de qualidades desejáveis – nutritivas, de sanidade e/ou adaptabilidade aos agroecossistemas.
  • Alterações negativas no metabolismo – e.g.; produção de metabólitos secundários, acumulação compostos ou substâncias potencialmente tóxicas ou carcinogênicas.
Embora os efeitos de correlações gênicas também ocorram nos métodos de melhoramento tradicionais, a lentidão adequada destes aos ritmos naturais e ciclos reprodutivos permite que a seleção natural ou humana identifique e/ou elimine as transformações indesejáveis a tempo. Na Engenharia Genética, a rapidez das transformações e da difusão dos organismos geneticamente transformados (OGMs) oferece prazos demasiado curtos para a prevenção de possíveis danos à saúde do consumidor ou do ambiente. Exemplo disso é a disseminação aleatória de genes artificialmente introduzidos em plantas via pólen transgênico que pode prejudicar insetos úteis ou levar características de maior resistência ou virulência a plantas e micróbios silvestres potencialmente daninhos.
Por outro lado, os próprios mecanismos de indução artificial de mutações e transferência de genes se baseiam na seleção de células transformadas pela aplicação de radiações ou de antibióticos de amplo espectro, que podem facilmente ser transferidos a outros organismos por processos naturais (e.g.; micróbios simbióticos do trato digestivo, pólen), com prováveis conseqüências deletérias (Mantell et al., 1985).

Do ponto de vista agroecológico, o grande dano que a difusão de transgênicos traz para a biodiversidade é que, de forma semelhante aos híbridos – mas com potencial daninho muito superior, é o abandono pelos agricultores e instituições, das variedades, cultivares, raças e ecotipos tradicionais regionalmente adaptados por séculos de seleção, cujos genes, clones e sementes já foram em muitos casos estrategicamente patenteados ou colecionados nos bancos de germoplasma das mesmas empresas transnacionais proprietárias de transgênicos (Mooney, 1987; Koechlin et al., 2003). Um exemplo extremo desses objetivos monopolistas é o gene terminator que promove a produção de sementes estéreis tornando obrigatória a dependência do agricultor pela compra de sementes. A disseminação aleatória de genes do tipo terminator constitui a maior ameaça potencial à biodiversidade jamais provocada pelo homem.

Finalmente, o aspecto socioeconômico extremamente negativo dos transgênicos comerciais é o patenteamento de cultivares e raças nativas regionais, que na verdade são cultígenes selecionados por gerações de agricultores tradicionais e constituem patrimônio e propriedade genética e intelectual dessas populações rurais, não estando portanto sujeitos aos critérios e patentes aplicáveis a invenções e descobertas científicas de propriedade privada autêntica.” 
                    Dr. Geraldo Deffune G. de Oliveira
           Eng° Agr° (USP); M.Sc. & Ph.D.(Univ. of London)
       Agricultura Biológico-Dinâmica e Agroecologia Aplicada
       UNIVERSIDADE DE UBERABA, Campus II, Bloco J,
       ICTA – Instituto de Ciências e Tecnologia do Ambiente
   Av. Nenê Sabino 1801, 38055-500, Uberaba-MG, BRASIL
      Tels.: (34) 3319.8819, 8965 & 8968; FAX: 3314.8910
                           geraldo.deffune@uniube.br

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