>Revolucionarismo de sofá e fetichismo revolucionarista

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Aconteceu que há dias, numa amena cavaqueira republicano – estudantil em Coimbra, entrei numa polémica acerca do papel que a blogosfera poderá eventualmente ter na actividade revolucionária, ou sobre a militância dos que se dizem revolucionários. Visto que agora, junto com os meus camaradas de tasca, resolvemos entrar no mercado blogosférico, impõe-se uma reflexão sobre o assunto, a qual partilho desde já na nossa recém – criada taberna, correndo sempre o risco que ninguém se interesse por ela. Enfim, quem não goste ou não se interesse, que vá para a tasca do vizinho, pois o que não falta por aí são tabernáculos bloguísticos bem acolhedores e variados…

A primeira imagem que foi realçada na nossa discussão é a do chamado revolucionário de sofá, categoria algo comum nos dias de hoje, sendo constituída por aqueles indivíduos que resumem a sua actividade de transformação da sociedade a escrever textos em blogs, e/ou Facebook. Sendo marxista, acredito que a transformação da sociedade apenas poderá advir de uma intervenção directa sobre o tecido produtivo, isto é, sobre o real, e não apenas sobre o abstracto, logo, obviamente que o revolucionário de sofá cumpre um papel diminuto, se o seu objectivo político é o derrube da ordem burguesa.

No entanto, tudo tem o seu pólo oposto: existe também o fetichista revolucionário (categoria criada por mim, e não pelo nosso colega de polémica), isto é, aquele que pensa que a metodologia organizativa e política revolucionária não se alterou nem um milímetro desde Outubro de 1917. Ou seja, a única modalidade de intervenção na sociedade será a sindical / partidária e todos os que não cumprem este requisito são inconsequentes, e todos os que gastam o seu tempo a escrever na blogosfera são intelectuais elitistas, e as suas reflexões webísticas meras masturbações eruditas. Ora, se a primeira pode ser considerada um desvio de direita, esta consiste, indubitavelmente, numa deriva ultra-esquerdista bem demarcada.

O pior erro de um marxista é ignorar os avanços da sociedade no plano da comunicação e da tecnologia que, mesmo em épocas recessivas ao nível das forças produtivas, continuam a desenvolver-se na sociedade capitalista. Seria igualmente um erro crasso ignorar o papel da Web nas tarefas revolucionárias do século XXI, que pode ser imenso ao nível da propaganda direccionada para vanguarda, e também ao nível da mobilização mais geral. Basta ler as notícias sobre a importância que o Facebook teve, por exemplo, na mobilização para as recentes manifestações contra Mubarak, no Egipto. Dir-me-á o nosso arguente que a blogosfera é um meio elitista, e que não chega a todas as camadas da classe trabalhadora. Correctíssimo. Mas assim, será que as epístolas trocadas entre Lenin e Rosa Luxemburgo eram lidas por todos os operários de Petersburgo? Será que o facto de não chegar todos reduz a importância que chegue a alguns? Será que todas as camadas da classe trabalhadora lêem o jornal do seu partido? Certamente que não, mas não extrai a importância da continuidade da sua publicação.

Não considero que o modelo leninista de organização partidária esteja esgotado, mas simplesmente ele tem de se adaptar aos tempos que correm. As tarefas organizativas e políticas do jornal de uma eventual organização revolucionária não perdem o seu lugar, mas têm inevitavelmente de ser complementadas com informação na Web, que é um meio de comunicação potentíssimo nos dias que correm, e onde o capital e respectivas forças de repressão (ainda) têm enormes dificuldades em controlar. Minimizar este facto, e partir do pressuposto que hoje em dia as tarefas de agitação e discussão apenas podem ser efectuadas à volta do jornal do partido e à porta da fábrica, é de facto uma deriva fetichista revolucionarista. Obviamente que decisões políticas oficiais não podem ser tomadas através do Facebook, nem devemos resumir a nossa actividade revolucionária ao blogspot.com, mas não ignoremos o espaço livre que a Web oferece para complementar as tarefas de propaganda/agitação/discussão.

Admito que quem conseguiu aturar este texto até ao fim pensará que não passa de uma masturbação intelectual. Enfim, actividade revolucionária sem um pouco de estimulação auto-erótica seria uma seca, não acham?…

5 thoughts on “>Revolucionarismo de sofá e fetichismo revolucionarista

  1. >Não deixa de ser caricato como aqueles que supostamente estão a construir o terceiro, há mais de dez anos em barriga de aluguer, categorizam os que têm os dois primeiros de masturbadores compulsivos. Enfim, em parte reflecte o estado miserável em que está a esquerda radical: assim que se tem oportunidade, atira-se pedras ao camarada do lado…Assim não vamos lá, de certeza.

  2. >Interesante reflexión sobre los polos opuestos que se deben evitar. Es evidente que muchos se descargan emocional y políticamente en internet como si se tratara de la confesión con el cura o de un diario de papel rosado. Luego en la calle parece que no les quedan energías para protestar ante una mala acción ciudadana. Luego están los de la vieja guardia. Los amigos de las siglas y los apellidos con añadido del "-ista". No cambian el discurso, usan los mismos términos que sus padres. Evidentemente siguen existiendo las mismas realidades: lucha de clases, injusticia, miseria, pero no justifica que algunos se sigan expresando como Lenin o un comunista de los años 70. Los tiempos cambian, no todos somos proletarios, no todos formamos parte del lumpen o de la intelectualidad, aunque parezca atractivo hacer creer que lo somos. Y si queremos poner un punto sobre la i, no es necesario que el criticado se dé por ofendido y forme un grupúsculo bajo siglas nuevas, archienemigo del tronco del que brotó. Las palabras se reflejan en los actos y viceversa. -hasta pronto, camarada riguense-

  3. >Deve-se partir dos pólos, para construir uma totalidade. Isto é, utilizar as potencialidades da web, sem descurar a tradição de luta das classes oprimidas. Mas esta conversa deveria ocorrer na nossa cozinha, em Riga ;) Atë breve, camarada!

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