>“Desistência” da democracia ou esgotamento das alternativas oferecidas por esta?

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Muita gente interpretou os resultados das últimas presidenciais, onde os níveis da abstenção subiram a um pico nunca antes visto, como uma “irresponsabilidade” ou uma “desistência” do povo português na democracia parlamentar, e os deveres e direitos que ela acarreta. Apesar de estar bem consciente relativamente às limitações deste regime e desta democracia, não acho que se trate apenas disso. Ou melhor, não é tão simples como isso.
Quando me perguntam qual a minha interpretação dos resultados destas eleições, a minha resposta é uma: reflectiram o vazio. Reflectiram o esvaziamento do discurso, a consagração do pós-ideológico, do populismo e da política míope. Reflectiram o descrédito e, mais importantemente, reflectiram a falta de alternativa política. Nada de novo, portanto. Pelo menos, assim parece.
Á direita, o pragmatismo de sempre. As elites beatas e conservadoras sempre foram militantes da defesa dos seus privilégios, e votam em qualquer um que os garanta, arrastando com elas grande parte dos oprimidos por estas políticas. O populismo, a ausência de uma clarificação político – ideológica, ou o próprio envolvimento em negócios pouco claros, nunca foram um problema. Bem pelo contrário, desde que o desmantelamento dos serviços sociais, as privatizações e o ataque aos direitos laborais continuem, a direita liberal, beata e conservadora votaria no diabo, se tal se impusesse. Quer Satanás use o nome de Cavaco, Sócrates ou Passos Coelho, tanto dá. Os escrúpulos de quem domina os meios de produção e de troca são nulos no que toca á defesa dos seus privilégios. Assim, Cavaco foi reeleito á primeira volta, como se previa.
A novidade vem da esquerda. A alta taxa de abstenção, juntamente com os brancos e nulos, teve origem, indubitavelmente, nos votantes habituais da esquerda, onde se verificou uma tendência contrária à da direita: os votantes de esquerda estão atentos, e têm escrúpulos. Não foram “irresponsáveis”, nem “desistiram” da democracia. Pelo contrário, não abdicaram de defender os seus direitos. Nestas eleições, como em muitas outras, vislumbrámos uma enganosa metamorfose dos políticos de ocasião, transformação que, desta vez, não passou despercebida ao eleitorado de esquerda: de um momento para o outro, Sócrates tornou-se o defensor do Estado Social, o PS erradicou qualquer eventual responsabilidade no desmantelamento do mesmo, e Manuel Alegre apresentou-se imaculado como a própria Virgem. Os partidos que o apoiaram (BE e PS) exibem o candidato ao público como se ele nunca tivesse sido eleito deputado pelo partido do governo, como se nunca tivesse votado orçamentos, privatizações, etc. Ora, o povo de esquerda não é estúpido, e nem tem a memória tão curta como os senhores das cúpulas partidárias imaginam. Tentaram vender gato por lebre, e foram derrotados. Os trabalhadores e o povo de esquerda afirmaram claramente: não queremos mais do mesmo, queremos mudança, queremos alternativa. Os trabalhadores e o povo de esquerda não desistiram da democracia. Simplesmente, estão fartos dos moldes nos quais esta se fundamenta, e não querem que sejam apenas as moscas a mudar…
À esquerda do PS, único sector político – ideológico que poderia e deveria ter apresentado alternativas de ruptura, verificámos a capitulação definitiva do BE ao centrão, enquanto o PCP decidiu apresentar um candidato do aparelho e para o aparelho, já a pensar na eleição do próximo secretário-geral. Ainda assim, Francisco Lopes foi o único candidato que apresentou um programa de mudança à esquerda e, por tal, mereceu o meu voto, ainda que sem grande convicção.
A candidatura de Alegre foi das mais incoerentes que já presenciei nos meus poucos anos de activismo político. Apresentava-se como o defensor do Estado Social, mas era apoiado pelo partido que melhor aplicou a agenda política neo-liberal nestes últimos trinta anos. Em Castelo Branco elogia Sócrates, uns poucos quilómetros adiante, em Coimbra, torna-se um abnegado anti-capitalista e impulsionador da “luta de classes” (a fraseologia marxista é dele, sublinhe-se). Ou seja, uma candidatura inconsequente, débil, encenada, que nunca poderia mobilizar a esquerda que quer a mudança de políticas. Definitivamente, Alegre não soube interpretar o depósito de confiança que recebeu há cinco anos, quando se candidatou sem o apoio do governo, e ultrapassou o candidato deste. Cavaco foi o presidente menos votado de sempre, e tanto ele como Alegre, perderam centenas de milhar de votos em relação a 2006, marcando a derrota do centro, isto é, a derrota da situação, e das políticas actuais. Os que não votaram, ou votaram branco – nulo (mais de metade da população), não se demitiram das suas responsabilidades democráticas. Apenas constataram o óbvio: a falta de alternativas à esquerda do PS, o esvaziamento do discurso, a consagração da política do teleponto. A derrota da esquerda não foi a derrota de Alegre, mas sim a incapacidade (ou falta de vontade) de apresentar alternativas políticas e programáticas credíveis.
Em contraponto à derrota da esquerda e dos trabalhadores, desvela-se a vitória dos mesmos de sempre. Primeiro, José Sócrates, que além de ter sido eleito um presidente que comunga do seu programa neo-liberal, conseguiu “segurar” a ala esquerda do seu partido, através do apoio táctico a Manuel Alegre, e conseguiu fracturar o BE, cujas dissensões internas se aprofundaram, após o apoio ao candidato do governo (assumo-me como um dos dissidentes deste último partido, porquanto decidi abandonar a organização definitivamente, depois de anos de desencontros políticos com a sua direcção). Depois, a direita, que em breve terá a oportunidade de concretizar o seu sonho de há muitos anos, elegendo um governo e um presidente. Esperemos que os trabalhadores, os jovens e toda a esquerda consequente estejam dispostos a derrotá-los na rua, que é ai que se faz a história, não em comícios teatrais e discursos de teleponto.

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